ORIGENS DA TENTATIVA DE SECESSÃO
ORIGENS DA TENTATIVA DE SECESSÃO
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Walt Whitman
Não o assunto todo, mas alguns fatos secundários que são dignos de nota hoje e qualquer dia.
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CONSIDERO a guerra de tentativa de secessão, 1860-1865, não como uma luta de dois povos distintos e separados, mas um conflito (que acontece com frequência, e muito feroz) entre as paixões e os paradoxos de uma única e mesma identidade–talvez os únicos termos sobre os quais essa identidade pudesse realmente se tornar fundida, homogênea e duradoura. A origem e as condições a partir das quais ela surgiu estão cheias de lições, cheias de avisos ainda para a República–e sempre estará. As origens subjacentes e principais são ainda singularmente ignoradas. Os Estados do Norte foram realmente tão responsáveis por essa guerra (em seus precedentes, fundações, instigações,) quanto o Sul. Deixe-me tentar mostrar minha visão. Da idade de 21 a 40 (1840-60), eu era interessado nos movimentos políticos desta terra, não tanto como um participante, mas como um observador e um eleitor regular nas eleições. Acho que eu estava familiarizado com as molas da ação, e seu funcionamento, não só na cidade de Nova York e Brooklyn, mas entendi-as em todo o país, conforme tinha feito calmas viagens por todos os Estados do meio-atlântico [Nova Iorque, Pensilvânia, Nova Jersey, e também Delaware e Maryland], e parcialmente através daqueles do oeste e sul, descendo até New Orleans, cidade em que residi por algum tempo. (Eu estava lá no final da Guerra Mexicana [Mexicano-americana, 1846-48] e vi e conversei com o General Taylor, e os outros generais e oficiais, que foram festejados e retidos por vários dias em seu retorno vitorioso daquela expedição.)
É claro que muitas coisas muito contraditórias, especialidades, desenvolvimentos, pontos de vista constitucionais, etc., compuseram a origem da guerra–mas o fato geral mais significativo pode ser melhor indicado e declarado como segue: Durante os 25 anos anteriores à revolta, as controladoras convenções “Democráticas” nomeadoras de nossa República—começando em suas primárias em subdistritos ou distritos, e assim a expandir para condados, cidades poderosas, Estados, e às grandes convenções Presidenciais nomeadoras—começaram a representar e ser compostas de mais e mais materiais pútridos e perigosos. Deixe-me dar uma agenda, ou lista, de uma dessas convenções representativas de um longo tempo anterior, e inclusiva, daquela que nomeou Buchanan. (Lembre-se que elas tinham se tornado as fontes e tecidos do corpo político norte-americano, formando, por assim dizer, o sangue total, legislação, cargos, etc.) Uma dessas convenções, de 1840 a 1860, exibiu um espetáculo como nunca poderia ser visto, exceto em nossa própria época e nestes Estados. Os membros que a compunham eram, sete oitavos deles, do pior tipo de funcionários chorões e exibidos, pedidores de emprego, cafetões, pessoas mal-intencionadas, conspiradores, assassinos, gigolôs, funcionários de alfândega, empreiteiros, editores promíscuos, cães [spaniels] bem treinados para levar e buscar, atravessadores, infiéis, separatistas, terroristas, saqueadores de correio, caçadores de escravos, traficantes de escravos, fantoches do presidente, fantoches de presidentes futuros, espiões, subornadores, conciliadores, lobistas, parasitas, apostadores arruinados, jogadores expulsos, financiadores de políticas, jogadores de monte, duelistas, portadores de armas escondidas, homens surdos, homens espinhentos, com cicatrizes interiores de doença vil, pomposos por fora com correntes de ouro feitas do dinheiro do povo e dinheiro de prostitutas entrelaçados; homens rastejantes e serpentinos, as cardaduras piolhentas e os vendedores de liberdade natos da terra. E de onde eles vieram? De quintais e bares; das alfândegas, das delegacias, dos correios, e casinos; da casa do presidente, da cadeia, do quartel general da polícia ou bombeiros; a partir de inomináveis lugares remotos, onde a desunião demoníaca foi incubada à meia-noite; de carros funerários políticos, e dos caixões dentro, e das mortalhas dentro dos caixões; dos tumores e abscessos da terra; dos esqueletos e caveiras nas catacumbas dos asilos federais; e das chagas correntes das grandes cidades. Tais [elementos], eu digo, formaram, ou absolutamente controlaram a formação de, todo o pessoal, da atmosfera, alimento e quilo; de nossa política municipal, estadual, e nacional–substancialmente permeando, manipulando, decidindo, e manejando tudo–legislação, nomeações, eleições, “sentimento público”, etc.–enquanto as grandes massas do povo, agricultores, mecânicos e comerciantes, estavam indefesos em suas garras. Estas condições eram em sua maioria predominantes no norte e oeste, e especialmente em Nova York e Filadélfia; e os líderes do sul (maus o bastante, mas de uma ordem muito mais elevada) fizeram um acordo e se afiliaram, e as usaram. É estranho que uma tempestade tenha se seguido a tais mórbidas e sufocantes camadas de nuvem?
Digo, então, que o que, como foi recém esboçado, anunciado, e preparou o solo para a revolta da secessão, deve ser exposto, por todo o futuro, como a lição mais instrutiva na história da política norte-americana—o aviso e o farol mais significativos para as próximas gerações. Digo que os mandatos da décima sexta, décima sétima e décima oitava Presidências Norte-Americanas tem mostrado que a vilania e a superficialidade dos governantes (mantidas pela máquina de grandes partidos) são tão apropriadas para estes Estados como para qualquer despotismo estrangeiro, reinado, ou império–não há um pingo de diferença. A história deve registrar esses três Mandatos Presidenciais, e especialmente as administrações de Fillmore e Buchanan, como até agora nossas advertência e vergonha máximas. Nunca foram publicamente exibidos homens mais deformados, medíocres, chorões, inconfiáveis, falsos. Nunca foram estes Estados tão insultados, e tentados à traição. Todos os principais objetivos para os quais o governo foi estabelecido foram abertamente negados. A igualdade perfeita da escravidão com a liberdade foi ostensivamente pregada no norte—não somente isso, mas a superioridade da escravidão. Foi proposto que o comércio de escravos fosse renovado. Em todos os lugares reprovações e desentendimentos–em todos os lugares exasperações e humilhações. (A disputa da escravidão está liquidada–e a guerra terminou faz tempo—no entanto, essas condições pútridas, muitas delas, não existem ainda? Não resultam ainda em doenças, febres, feridas–não de guerra e de hospitais do exército–mas as feridas e doenças da paz?)
Dessas influências genéricas, principalmente em Nova York, Pensilvânia, Ohio, etc., surgiu a tentativa de desunião. A um exame filosófico, a febre maligna dessa guerra mostra suas fontes embrionárias, e os nutrientes originais de sua vida e crescimento, no norte. Digo que a secessão, abaixo da superfície, originou-se e foi trazida à maturidade nos Estados livres. Refiro-me às duas dezenas de anos anteriores a 1860. Minha opinião deliberada agora é que, se por ocasião da abertura da disputa, a questão abstrata da dualidade de escravidão e tranquilidade pudesse ter sido submetida ao voto popular direto, contra seu oposto, elas teriam triunfantemente vencido na maioria dos Estados do norte–nas grandes cidades, lideradas por Nova York e Filadélfia, por maiorias tremendas. Os acontecimentos de 1861 espantaram todos norte e sul, e estouraram todas as profecias e cálculos como bolhas. Mas mesmo então, e durante toda a guerra, o fato austero permanece de que (não só o norte o suprimiu, mas) a causa da secessão teve numericamente tantos simpatizantes nos Estados livres quanto nos rebeldes.
Quanto à escravidão, abstrata e praticamente (sua ideia, e a determinação de estabelecê-la e expandi-la, especialmente nos novos territórios, a América futura), é muito comum, repito, identificá-la exclusivamente com o sul. Na verdade, até o início da guerra, o país inteiro tinha uma visão igual sobre ela. O norte tinha sido no mínimo tão culpado, se não mais culpado; e o leste e oeste também. O ex-Presidentes e Congressos haviam sido culpados—os governadores e assembleias legislativas de todos os Estados do norte haviam sido culpados, e os prefeitos de Nova York e de outras cidades do norte tinham todos sido culpados–suas mãos estavam todas manchadas. E conforme o conflito tomou forma decidida, é difícil dizer qual classe, os líderes separatistas do sul ou do norte, estava mais espantada e decepcionada com a falta de ação do elemento de secessão dos estados livres, tão amplamente existente e levado em conta por esses líderes, de ambos os lados.
Tanto para esse ponto, e para o norte. Quanto à criação e instigação direta da guerra, no próprio sul, não tentarei descrever interiores ou complicações. Por trás de tudo, a verdadeira teoria sem dúvida foi e é que a ideia era uma determinação resoluta e arrogante por parte dos escravagistas radicais, os Calhounites [seguidores de John C. Calhoun, vice-presidente entre 1825 e 1832, que defendia que os estados poderiam anular legislação federal que considerassem inconstitucional], de levar a porção do pacto constitucional dos direitos dos estados ao seu limite mais distante, e nacionalizar a escravidão, ou então romper a União, e fundar um novo império, com a escravidão como seu alicerce. (Se bem sucedida, esta tentativa poderia–não tenho certeza, mas poderia—ter destruído não somente nossa república Norte-Americana, em proporções de primeira grandeza ou algo assim, em si mesma e seu prestígio, mas por eras, pelo menos, a causa da Liberdade e Igualdade em todos os lugares–e teria sido o maior triunfo da reação, e o mais severo golpe à liberdade política e todas as outras liberdades possíveis de conceber. Seu pior resultado teria subjugado os próprios Estados do sul.) Que nosso experimento democrático nacional, princípio e máquina pudessem suportar triunfantemente um choque tamanho, e que a Constituição pudesse resisti-lo, como um navio a uma tempestade, e sair dele tão saudável e inteira como antes, é de longe já a prova mais cabal da estabilidade desse experimento, a Democracia, e desses princípios, e dessa Constituição.
Da própria guerra, conhecemos na aparência o que foi feito. O número de mortos e feridos pode ser contado ou aproximado, a dívida publicada e registrada, os eventos materiais narrados, etc. Enquanto isso, as eleições continuam, leis são aprovadas, partidos políticos digladiam-se, publicam suas plataformas, etc, da mesma forma como antes. Mas resultados imensos, não só na política, mas na literatura, poemas, e sociologia, estão, sem dúvida, aguardando ainda não-formados no futuro. Quanto tempo vão esperar não posso dizer. O cortejo da retrospectiva da história nos mostra, desde eras, toda a Europa marchando nas cruzadas, aqueles levantes armados do povo, agitados por uma simples ideia, à mais grandiosa tentativa–quando uma vez perplexos nela, retornando, em intervalos, duas, três vezes, e de novo. Uma série insuperada de acontecimentos revolucionários, influências. No entanto, foram necessários mais de duzentos anos para as sementes das cruzadas germinar, antes de começar mesmo a brotar. Duzentos anos elas jazeram, dormindo, não mortas, mas adormecidas no chão. Então, delas, infalivelmente, artes, viagens, navegação, política, literatura, liberdade, espírito de aventura, investigação, tudo se elevou, cresceu, e de forma constante acelerou-se ao que estamos vendo no presente. Muito lá atrás, aquela enorme agitação- luta das cruzadas se projeta, como, sem dúvida, o embrião, o início, da elevada preeminência do experimento, da civilização e do empreendimento que as nações europeias tem, desde então, mantido, e dos quais estes Estados são os herdeiros.
Outra ilustração–(a história está cheia delas, embora a própria guerra, a vitória da União, e as relações de nossos Estados iguais apresentem características às quais não há precedentes no passado.) A conquista da Inglaterra há oito séculos pelos Franco-normandos, a obliteração do antigo (em muitos aspectos precisando muito de obliteração), o Livro Domesday [censo da Inglaterra executado por Guilherme I em 1086], e a partilha da terra–a velha bagagem militar removida, até mesmo por sangue e violência implacável, e uma nova gênese progressista estabelecida, novas sementes plantadas—o tempo tem revelado de forma bastante clara que, amarga como foi, todas essas foram a série mais salutar de revoluções que poderia possivelmente ter acontecido. Delas, e por elas, principalmente, têm vindo, da Inglaterra Álbica, Romana e Saxônica–e sem elas não poderiam ter vindo–não só a Inglaterra desses 500 anos até o presente, e do presente–mas estes Estados . Nem, exceto por esse terrível deslocamento e transtorno, estes Estados, como são, existiriam hoje.
É certo para mim que os Estados Unidos, em virtude dessa guerra e de seus resultados, e através disso e deles somente, estão prontos para iniciar, e certamente devem iniciar, sua carreira genuína na história, não mais como dividido e dilacerado em suas condições essenciais, mas uma grande Nação homogênea–todos estados livres–uma unidade moral e política em variedade, tal como a natureza mostra em suas obras físicas mais grandiosas, e como muito maior do que qualquer trabalho simples da Natureza, como o moral e o político, o trabalho do homem, sua mente, sua alma, são, em seu sentido mais sublime, maiores do que o meramente físico. Dessa guerra, não somente a nacionalidade dos Estados escapou de ser estrangulada, mas mais do que qualquer um dos demais, e, na minha opinião, mais do que o norte em si, o coração vital e o alento do sul escaparam como da pressão de um pesadelo geral, e devem entrar doravante em uma vida, desenvolvimento e liberdade ativa, cujas realidades são certas no futuro, não obstante todos os dissabores sulistas do momento–um desenvolvimento que não poderia ter sido alcançado por condições menores, ou por qualquer outro meio que não essa severa lição, ou algo equivalente a ela. E eu prevejo que o sul deve ainda superar o norte.
15. Por Oito Anos
Por Oito Anos
Em 1848, ’49, eu estava ocupado como editor do jornal “diário Eagle”, no Brooklyn. Nesse último ano parti em uma cômoda viagem e expedição de trabalho (meu irmão Jeff comigo) por todos os Estados centrais e pelos Rios Ohio e Mississipi. Vivi algum tempo em Nova Orleans, e trabalhei lá na redação do jornal “diário Crescente”. Depois de um tempo, retornei lentamente pelo norte, subindo o Mississipi, e rodeando pelos grandes lagos, Michigan, Huron e Erie, pelas Cataratas do Niágara e baixo Canadá, finalmente regressando pelo centro de Nova Iorque e descendo o rio Hudson; viajando no total provavelmente 8000 milhas na viagem de ida e volta. Em 1851, ’53, ocupado em construção de casas no Brooklyn. (Por um pouco da primeira parte desse tempo na impressão de um jornal diário e semanal, ”O Freeman”). Em 1855, perdi meu querido pai nesse ano por morte. Principiei a colocar “Folhas de Relva” para impressão definitivamente, no escritório de impressão dos meus amigos, os irmãos Rome, no Brooklyn, após muitas inclusões e retiradas nos manuscritos–(tive grande dificuldade em deixar de fora os toques “poéticos” comuns, mas finalmente consegui). Estou agora (1856, ‘57) passando pelo meu 37º ano.
13. Passeios de Ônibus e Condutores
PASSEIOS DE ÔNIBUS E CONDUTORES
Uma fase daqueles dias não deve de modo algum ficar sem registro—a saber, os ônibus da Broadway, com seus condutores. Os veículos ainda (escrevo este parágrafo em 1881) dão uma parte do caráter da Broadway—as linhas da Quinta Avenida, Avenida Madison e rua Vinte e três ainda trafegam. Mas os dias de esplendor dos velhos palcos da Broadway, característicos e copiosos, terminaram. O Yellow-birds, o Red-birds, o Broadway original, o Quarta avenida, o Knickerbocker e mais uma dúzia de outros de vinte ou trinta anos atrás, todos se foram. E os homens, especialmente identificados com eles, e que davam vitalidade e significado a eles—os condutores—uma raça estranha, natural, perspicaz e maravilhosa–(não apenas Rabelais e Cervantes teriam exultado com eles, mas também Homero e Shakspere [sic])–como me lembro bem deles, e devo aqui dar uma palavra sobre eles. Quantas horas, manhãs e tardes—quantas noites divertidas eu tive–talvez em junho ou julho, no ar mais fresco—percorrendo toda extensão da Broadway, ouvindo alguma narrativa (e as mais vívidas narrativas já engendradas, e as mais raras imitações)–ou talvez eu declamando algum trecho tempestuoso de Júlio César ou Richard (podia-se gargalhar alto como se queria naquela atmosfera pesada, densa, sem interrupção). Sim, eu conhecia todos os condutores naquela época, Broadway Jack, Dressmaker, Balky Bill, George Storms, Old Elephant, seu irmão Young Elephant (que veio depois), Tippy, Pop Rice, Big Frank, Yellow Joe, Pete Callahan, Patsy Dee, e dúzias de outros; pois havia centenas. Eles tinham imensas qualidades, na maioria sensuais–comer, beber, mulheres–grande orgulho pessoal, à sua maneira–talvez alguns desleixos, aqui e ali, mas eu teria confiado na classe geral deles, em sua simples boa-vontade e honra, em qualquer circunstância. Não apenas para camaradagem, e às vezes afeição—foram grandes estudos para mim também. (Suponho que os críticos vão rir com prazer, mas a influência daqueles passeios de ônibus e condutores na Broadway e declamações e escapadelas sem dúvida entraram na gestação de “Folhas de Relva”).
Hello world!
Bem-vindos ao blog Prosa de Whitman, que abrigará minha tradução da obra em prosa de Walt Whitman.
Como enfatizei na página ‘About’ deste blog, Walt Whitman teve uma longa carreira como poeta, jornalista e escritor, e encheu muitas páginas com ensaios, críticas, reportagens e estudos sobre os Estados Unidos, seu povo, política, Democracia e sistema de governo, indústria, comércio, Natureza, bem como descreveu a humanidade como um todo.
Há um longo e árduo trabalho pela frente, pois são mais de 600 páginas de escritos em prosa do bardo norte-americano.
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