ORIGENS DA TENTATIVA DE SECESSÃO
ORIGENS DA TENTATIVA DE SECESSÃO
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Walt Whitman
Não o assunto todo, mas alguns fatos secundários que são dignos de nota hoje e qualquer dia.
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CONSIDERO a guerra de tentativa de secessão, 1860-1865, não como uma luta de dois povos distintos e separados, mas um conflito (que acontece com frequência, e muito feroz) entre as paixões e os paradoxos de uma única e mesma identidade–talvez os únicos termos sobre os quais essa identidade pudesse realmente se tornar fundida, homogênea e duradoura. A origem e as condições a partir das quais ela surgiu estão cheias de lições, cheias de avisos ainda para a República–e sempre estará. As origens subjacentes e principais são ainda singularmente ignoradas. Os Estados do Norte foram realmente tão responsáveis por essa guerra (em seus precedentes, fundações, instigações,) quanto o Sul. Deixe-me tentar mostrar minha visão. Da idade de 21 a 40 (1840-60), eu era interessado nos movimentos políticos desta terra, não tanto como um participante, mas como um observador e um eleitor regular nas eleições. Acho que eu estava familiarizado com as molas da ação, e seu funcionamento, não só na cidade de Nova York e Brooklyn, mas entendi-as em todo o país, conforme tinha feito calmas viagens por todos os Estados do meio-atlântico [Nova Iorque, Pensilvânia, Nova Jersey, e também Delaware e Maryland], e parcialmente através daqueles do oeste e sul, descendo até New Orleans, cidade em que residi por algum tempo. (Eu estava lá no final da Guerra Mexicana [Mexicano-americana, 1846-48] e vi e conversei com o General Taylor, e os outros generais e oficiais, que foram festejados e retidos por vários dias em seu retorno vitorioso daquela expedição.)
É claro que muitas coisas muito contraditórias, especialidades, desenvolvimentos, pontos de vista constitucionais, etc., compuseram a origem da guerra–mas o fato geral mais significativo pode ser melhor indicado e declarado como segue: Durante os 25 anos anteriores à revolta, as controladoras convenções “Democráticas” nomeadoras de nossa República—começando em suas primárias em subdistritos ou distritos, e assim a expandir para condados, cidades poderosas, Estados, e às grandes convenções Presidenciais nomeadoras—começaram a representar e ser compostas de mais e mais materiais pútridos e perigosos. Deixe-me dar uma agenda, ou lista, de uma dessas convenções representativas de um longo tempo anterior, e inclusiva, daquela que nomeou Buchanan. (Lembre-se que elas tinham se tornado as fontes e tecidos do corpo político norte-americano, formando, por assim dizer, o sangue total, legislação, cargos, etc.) Uma dessas convenções, de 1840 a 1860, exibiu um espetáculo como nunca poderia ser visto, exceto em nossa própria época e nestes Estados. Os membros que a compunham eram, sete oitavos deles, do pior tipo de funcionários chorões e exibidos, pedidores de emprego, cafetões, pessoas mal-intencionadas, conspiradores, assassinos, gigolôs, funcionários de alfândega, empreiteiros, editores promíscuos, cães [spaniels] bem treinados para levar e buscar, atravessadores, infiéis, separatistas, terroristas, saqueadores de correio, caçadores de escravos, traficantes de escravos, fantoches do presidente, fantoches de presidentes futuros, espiões, subornadores, conciliadores, lobistas, parasitas, apostadores arruinados, jogadores expulsos, financiadores de políticas, jogadores de monte, duelistas, portadores de armas escondidas, homens surdos, homens espinhentos, com cicatrizes interiores de doença vil, pomposos por fora com correntes de ouro feitas do dinheiro do povo e dinheiro de prostitutas entrelaçados; homens rastejantes e serpentinos, as cardaduras piolhentas e os vendedores de liberdade natos da terra. E de onde eles vieram? De quintais e bares; das alfândegas, das delegacias, dos correios, e casinos; da casa do presidente, da cadeia, do quartel general da polícia ou bombeiros; a partir de inomináveis lugares remotos, onde a desunião demoníaca foi incubada à meia-noite; de carros funerários políticos, e dos caixões dentro, e das mortalhas dentro dos caixões; dos tumores e abscessos da terra; dos esqueletos e caveiras nas catacumbas dos asilos federais; e das chagas correntes das grandes cidades. Tais [elementos], eu digo, formaram, ou absolutamente controlaram a formação de, todo o pessoal, da atmosfera, alimento e quilo; de nossa política municipal, estadual, e nacional–substancialmente permeando, manipulando, decidindo, e manejando tudo–legislação, nomeações, eleições, “sentimento público”, etc.–enquanto as grandes massas do povo, agricultores, mecânicos e comerciantes, estavam indefesos em suas garras. Estas condições eram em sua maioria predominantes no norte e oeste, e especialmente em Nova York e Filadélfia; e os líderes do sul (maus o bastante, mas de uma ordem muito mais elevada) fizeram um acordo e se afiliaram, e as usaram. É estranho que uma tempestade tenha se seguido a tais mórbidas e sufocantes camadas de nuvem?
Digo, então, que o que, como foi recém esboçado, anunciado, e preparou o solo para a revolta da secessão, deve ser exposto, por todo o futuro, como a lição mais instrutiva na história da política norte-americana—o aviso e o farol mais significativos para as próximas gerações. Digo que os mandatos da décima sexta, décima sétima e décima oitava Presidências Norte-Americanas tem mostrado que a vilania e a superficialidade dos governantes (mantidas pela máquina de grandes partidos) são tão apropriadas para estes Estados como para qualquer despotismo estrangeiro, reinado, ou império–não há um pingo de diferença. A história deve registrar esses três Mandatos Presidenciais, e especialmente as administrações de Fillmore e Buchanan, como até agora nossas advertência e vergonha máximas. Nunca foram publicamente exibidos homens mais deformados, medíocres, chorões, inconfiáveis, falsos. Nunca foram estes Estados tão insultados, e tentados à traição. Todos os principais objetivos para os quais o governo foi estabelecido foram abertamente negados. A igualdade perfeita da escravidão com a liberdade foi ostensivamente pregada no norte—não somente isso, mas a superioridade da escravidão. Foi proposto que o comércio de escravos fosse renovado. Em todos os lugares reprovações e desentendimentos–em todos os lugares exasperações e humilhações. (A disputa da escravidão está liquidada–e a guerra terminou faz tempo—no entanto, essas condições pútridas, muitas delas, não existem ainda? Não resultam ainda em doenças, febres, feridas–não de guerra e de hospitais do exército–mas as feridas e doenças da paz?)
Dessas influências genéricas, principalmente em Nova York, Pensilvânia, Ohio, etc., surgiu a tentativa de desunião. A um exame filosófico, a febre maligna dessa guerra mostra suas fontes embrionárias, e os nutrientes originais de sua vida e crescimento, no norte. Digo que a secessão, abaixo da superfície, originou-se e foi trazida à maturidade nos Estados livres. Refiro-me às duas dezenas de anos anteriores a 1860. Minha opinião deliberada agora é que, se por ocasião da abertura da disputa, a questão abstrata da dualidade de escravidão e tranquilidade pudesse ter sido submetida ao voto popular direto, contra seu oposto, elas teriam triunfantemente vencido na maioria dos Estados do norte–nas grandes cidades, lideradas por Nova York e Filadélfia, por maiorias tremendas. Os acontecimentos de 1861 espantaram todos norte e sul, e estouraram todas as profecias e cálculos como bolhas. Mas mesmo então, e durante toda a guerra, o fato austero permanece de que (não só o norte o suprimiu, mas) a causa da secessão teve numericamente tantos simpatizantes nos Estados livres quanto nos rebeldes.
Quanto à escravidão, abstrata e praticamente (sua ideia, e a determinação de estabelecê-la e expandi-la, especialmente nos novos territórios, a América futura), é muito comum, repito, identificá-la exclusivamente com o sul. Na verdade, até o início da guerra, o país inteiro tinha uma visão igual sobre ela. O norte tinha sido no mínimo tão culpado, se não mais culpado; e o leste e oeste também. O ex-Presidentes e Congressos haviam sido culpados—os governadores e assembleias legislativas de todos os Estados do norte haviam sido culpados, e os prefeitos de Nova York e de outras cidades do norte tinham todos sido culpados–suas mãos estavam todas manchadas. E conforme o conflito tomou forma decidida, é difícil dizer qual classe, os líderes separatistas do sul ou do norte, estava mais espantada e decepcionada com a falta de ação do elemento de secessão dos estados livres, tão amplamente existente e levado em conta por esses líderes, de ambos os lados.
Tanto para esse ponto, e para o norte. Quanto à criação e instigação direta da guerra, no próprio sul, não tentarei descrever interiores ou complicações. Por trás de tudo, a verdadeira teoria sem dúvida foi e é que a ideia era uma determinação resoluta e arrogante por parte dos escravagistas radicais, os Calhounites [seguidores de John C. Calhoun, vice-presidente entre 1825 e 1832, que defendia que os estados poderiam anular legislação federal que considerassem inconstitucional], de levar a porção do pacto constitucional dos direitos dos estados ao seu limite mais distante, e nacionalizar a escravidão, ou então romper a União, e fundar um novo império, com a escravidão como seu alicerce. (Se bem sucedida, esta tentativa poderia–não tenho certeza, mas poderia—ter destruído não somente nossa república Norte-Americana, em proporções de primeira grandeza ou algo assim, em si mesma e seu prestígio, mas por eras, pelo menos, a causa da Liberdade e Igualdade em todos os lugares–e teria sido o maior triunfo da reação, e o mais severo golpe à liberdade política e todas as outras liberdades possíveis de conceber. Seu pior resultado teria subjugado os próprios Estados do sul.) Que nosso experimento democrático nacional, princípio e máquina pudessem suportar triunfantemente um choque tamanho, e que a Constituição pudesse resisti-lo, como um navio a uma tempestade, e sair dele tão saudável e inteira como antes, é de longe já a prova mais cabal da estabilidade desse experimento, a Democracia, e desses princípios, e dessa Constituição.
Da própria guerra, conhecemos na aparência o que foi feito. O número de mortos e feridos pode ser contado ou aproximado, a dívida publicada e registrada, os eventos materiais narrados, etc. Enquanto isso, as eleições continuam, leis são aprovadas, partidos políticos digladiam-se, publicam suas plataformas, etc, da mesma forma como antes. Mas resultados imensos, não só na política, mas na literatura, poemas, e sociologia, estão, sem dúvida, aguardando ainda não-formados no futuro. Quanto tempo vão esperar não posso dizer. O cortejo da retrospectiva da história nos mostra, desde eras, toda a Europa marchando nas cruzadas, aqueles levantes armados do povo, agitados por uma simples ideia, à mais grandiosa tentativa–quando uma vez perplexos nela, retornando, em intervalos, duas, três vezes, e de novo. Uma série insuperada de acontecimentos revolucionários, influências. No entanto, foram necessários mais de duzentos anos para as sementes das cruzadas germinar, antes de começar mesmo a brotar. Duzentos anos elas jazeram, dormindo, não mortas, mas adormecidas no chão. Então, delas, infalivelmente, artes, viagens, navegação, política, literatura, liberdade, espírito de aventura, investigação, tudo se elevou, cresceu, e de forma constante acelerou-se ao que estamos vendo no presente. Muito lá atrás, aquela enorme agitação- luta das cruzadas se projeta, como, sem dúvida, o embrião, o início, da elevada preeminência do experimento, da civilização e do empreendimento que as nações europeias tem, desde então, mantido, e dos quais estes Estados são os herdeiros.
Outra ilustração–(a história está cheia delas, embora a própria guerra, a vitória da União, e as relações de nossos Estados iguais apresentem características às quais não há precedentes no passado.) A conquista da Inglaterra há oito séculos pelos Franco-normandos, a obliteração do antigo (em muitos aspectos precisando muito de obliteração), o Livro Domesday [censo da Inglaterra executado por Guilherme I em 1086], e a partilha da terra–a velha bagagem militar removida, até mesmo por sangue e violência implacável, e uma nova gênese progressista estabelecida, novas sementes plantadas—o tempo tem revelado de forma bastante clara que, amarga como foi, todas essas foram a série mais salutar de revoluções que poderia possivelmente ter acontecido. Delas, e por elas, principalmente, têm vindo, da Inglaterra Álbica, Romana e Saxônica–e sem elas não poderiam ter vindo–não só a Inglaterra desses 500 anos até o presente, e do presente–mas estes Estados . Nem, exceto por esse terrível deslocamento e transtorno, estes Estados, como são, existiriam hoje.
É certo para mim que os Estados Unidos, em virtude dessa guerra e de seus resultados, e através disso e deles somente, estão prontos para iniciar, e certamente devem iniciar, sua carreira genuína na história, não mais como dividido e dilacerado em suas condições essenciais, mas uma grande Nação homogênea–todos estados livres–uma unidade moral e política em variedade, tal como a natureza mostra em suas obras físicas mais grandiosas, e como muito maior do que qualquer trabalho simples da Natureza, como o moral e o político, o trabalho do homem, sua mente, sua alma, são, em seu sentido mais sublime, maiores do que o meramente físico. Dessa guerra, não somente a nacionalidade dos Estados escapou de ser estrangulada, mas mais do que qualquer um dos demais, e, na minha opinião, mais do que o norte em si, o coração vital e o alento do sul escaparam como da pressão de um pesadelo geral, e devem entrar doravante em uma vida, desenvolvimento e liberdade ativa, cujas realidades são certas no futuro, não obstante todos os dissabores sulistas do momento–um desenvolvimento que não poderia ter sido alcançado por condições menores, ou por qualquer outro meio que não essa severa lição, ou algo equivalente a ela. E eu prevejo que o sul deve ainda superar o norte.
21. O Estupor Passa—Outra Coisa Começa
O ESTUPOR PASSA—OUTRA COISA COMEÇA
Mas a hora, o dia, a noite passaram, e o que quer que retorne, uma hora, um dia, uma noite como aquela não pode nunca retornar de novo. O Presidente, recuperando-se, começa naquela mesma noite–severamente, rapidamente inicia a tarefa de reorganizar suas forças, e colocando-se em posições para trabalho futuro e mais seguro. Se não houvesse mais nada de Abraham Lincoln com o qual a história pudesse carimbá-lo, é o suficiente mandá-lo com sua coroa de flores para a memória de todo tempo futuro, que ele suportou aquela hora, aquele dia, mais amargo que fel–de fato um dia de crucificação–que não o subjugou–que ele inabalavelmente enfrentou, e resolveu levantar a si mesmo e à União para além dele.
Então os grandes jornais de Nova Iorque apareceram de uma vez (começando naquela noite, e prosseguindo na manhã seguinte, e incessantemente por muitos dias depois) com líderes que soaram pelo país o toque mais alto, mais reverberante dos mais claros clarins, cheios de encorajamento, esperança, inspiração, inflexível desafio. Aqueles magníficos editoriais! eles nunca fatigaram nem por uma quinzena. O “Herald” os iniciou—lembre-me bem dos artigos. O “Tribune” também foi convincente e inspirador—e o “Times”, “Evening Post”, e outros jornais principais, não ficaram nem um pouco para trás. Eles vieram em boa hora, pois eram necessários. Pois, na humilhação de Bull Run, o sentimento popular no norte, a partir de sua extrema arrogância, recuou à profundidade da
tristeza e apreensão.
(De todos os dias da guerra, há dois especialmente que nunca posso esquecer. Esses foram o dia seguinte à notícia, em Nova Iorque e Brooklyn, daquela primeira derrota de Bull Run, e o dia da morte de Abraham Lincoln. Eu estava em casa no Brooklyn em ambas as ocasiões. No dia do assassinato ouvimos a notícia muito cedo de manhã. Mãe preparava o desjejum—e outras refeições depois—como sempre; mas nem um bocado foi ingerido durante todo o dia por nenhum de nós. Cada um de nós bebeu meia xícara de café; isto foi tudo. Pouco foi dito. Compramos todos os jornais de manhã e de tarde, e os extras freqüentes desse período, e os passamos silenciosamente um para o outro).
16. Fontes de Caráter–resultados–1860
FONTES DE CARÁTER–RESULTADOS–1860
Para resumir o que precede desde o início (e, naturalmente, muito, muito mais sem registro), estimo três principais fontes e marcas formativas para o meu próprio caráter, agora solidificado para o bem ou para o mal, e suas conseqüências posteriores literária e outras–a linhagem materna trazida para cá dos longínquos Países Baixos, por exemplo, em primeiro lugar (sem dúvida a melhor)–a tenacidade subterrânea e a estrutura óssea central (obstinação, voluntariedade), que adquiri dos meus elementos paternais ingleses, em segundo–e a combinação de meu local de nascimento, Long Island, praias, cenas da infância, absorções, com os fervilhantes Brooklyn e Nova Iorque–com, suponho, as minhas experiências posteriores na deflagração da secessão, em terceiro.
Pois, em 1862, assustado pela notícia de que meu irmão George, um oficial do regimento 51 de voluntários de Nova Iorque, tinha sido gravemente ferido (primeira batalha de Fredericksburg, 13 de dezembro), fui às pressas para o campo de guerra em Virginia. Mas devo retornar um pouco.
15. Por Oito Anos
Por Oito Anos
Em 1848, ’49, eu estava ocupado como editor do jornal “diário Eagle”, no Brooklyn. Nesse último ano parti em uma cômoda viagem e expedição de trabalho (meu irmão Jeff comigo) por todos os Estados centrais e pelos Rios Ohio e Mississipi. Vivi algum tempo em Nova Orleans, e trabalhei lá na redação do jornal “diário Crescente”. Depois de um tempo, retornei lentamente pelo norte, subindo o Mississipi, e rodeando pelos grandes lagos, Michigan, Huron e Erie, pelas Cataratas do Niágara e baixo Canadá, finalmente regressando pelo centro de Nova Iorque e descendo o rio Hudson; viajando no total provavelmente 8000 milhas na viagem de ida e volta. Em 1851, ’53, ocupado em construção de casas no Brooklyn. (Por um pouco da primeira parte desse tempo na impressão de um jornal diário e semanal, ”O Freeman”). Em 1855, perdi meu querido pai nesse ano por morte. Principiei a colocar “Folhas de Relva” para impressão definitivamente, no escritório de impressão dos meus amigos, os irmãos Rome, no Brooklyn, após muitas inclusões e retiradas nos manuscritos–(tive grande dificuldade em deixar de fora os toques “poéticos” comuns, mas finalmente consegui). Estou agora (1856, ‘57) passando pelo meu 37º ano.
14. Peças e Óperas Também
Peças e Óperas Também
E certos atores e cantores tiveram muito a ver com essa estória. Ao longo de todos esses anos, de vez em quando, eu freqüentava os teatros o antigo Park, o Bowery, o Broadway e o da praça Chatham, e as óperas italianas no da rua Chambers, no Astor ou no Battery—em muitas estações eu estava na lista gratuita, escrevendo para jornais, mesmo quando bem jovem. O antigo teatro Park–que nomes, reminiscências, as palavras recordam! Placide, Clarke, Sra. Vernon, Fisher, Clara F., Sra. Wood, Sra. Seguin, Ellen Tree, Hackett, o Kean mais jovem, Macready, Sra. Richardson, Rice–cantores, atores de tragédia e comédia. Que atuações perfeitas! Henry Placide em “A Velha Guarda de Napoleão” ou “Avô Whitehead”– ou “O Marido Provocado”, de Cibber, com Fanny Kemble fazendo Lady Townley–ou Sheridan Knowles em sua própria peça “Virginius”–ou o inimitável Power em “Nascido Para a Boa Sorte”. Estes, e muitos mais, nos anos da juventude e posteriores. Fanny Kemble–nome para evocar grandes cenas mímicas além do mais–talvez a maior. Lembro-me bem de sua representação de Bianca em “Fazio,” e Marianna em “A Esposa”. Nada melhor jamais foi exibido em nenhum palco–os veteranos de todas as nações disseram isso, e meu coração e cabeça de menino sentiram isso em cada minúscula célula. Essa dama tinha recém amadurecido, era forte, melhor do que simplesmente bonita, nascida da ribalta, tinha tido três anos de prática em Londres e em cidades britânicas, e então ela veio para dar à América aquela jovem maturidade e força otimista em seu meio-dia, ou melhor, manhã, resplendor. Foi minha boa sorte vê-la quase toda noite em que ela atuou no antigo Park–certamente em todos os seus personagens principais.
Ouvi, nesses anos, bem representadas, todas as óperas italianas e outras em voga, “Sonnambula”, “Os Puritanos”, ”Der Freischutz”, “Huguenotes”, “Fille d’Regiment”, ”Fausto”, “Etoile du Nord”, “Poliuto”, e outras. ”Ernani”, “Rigoletto” e “Trovatore”, de Verdi, ”Lucia” ou “Favorita” ou “Lucrezia”, de Donnizetti, e “Massaniello”, de Auber, ou “William Tell” e “Gazza Ladra”, de Rossini, estavam entre meus prazeres especiais. Ouvi [Marietta] Alboni toda vez que ela cantou em Nova Iorque e arredores– também Grisi, o tenor Mario, e o barítono Badiali, o mais refinado do mundo.
Esta paixão musical seguiu minha paixão pelo teatro. Quando menino, ou rapaz, eu tinha visto (lendo cuidadosamente no dia anterior), quase todos os dramas teatrais de Shakspere (sic), representados maravilhosamente bem. Não posso mesmo ainda conceber nada mais refinado do que Booth o velho em “Richard Terceiro”, ou “Lear” (não sei qual foi o melhor), ou Iago (ou Pescara, ou Sir Giles Overreach, para sair de Shakspere)–ou Tom Hamblin em “Macbeth” ou Clarke o velho, tanto como o fantasma em “Hamlet”, quanto como Próspero em “A Tempestade”, com a Sra. Austin fazendo Ariel, e Peter e Richings como Caliban. Em seguida outros dramas, e grandes atores neles, Forrest como Metamora ou Damon ou Brutus–John R. Scott como Tom Cringle ou Rolla—ou Lady Gay Spanker de Charlotte Cushman em ”London Assurance.” Depois, alguns anos mais tarde, no Castle Garden, Battery, ainda relembro temporadas esplêndidas da trupe musical Havana sob Maretzek—a bela banda, as frescas brisas marinhas, a vocalização insuperável–Steffanone, Bosio, Truffi, Marini em “Marino Faliero”, “Don Pasquale “, ou” Favorita”. Nunca houve melhor atuação ou canto em Nova Iorque. Foi também aqui que depois ouvi Jenny Lind. (Battery—suas correlações passadas–que contos aquelas velhas árvores e passeios e diques poderiam relatar!)
12. Paisagens da Broadway
PAISAGENS DA BROADWAY
Além da barca de Fulton, de vez em quando durante muitos anos, conheci e freqüentei a Broadway—essa célebre avenida de Nova Iorque de natureza humana repleta e mista, e de tantas pessoas insignes. Aqui eu vi, naqueles tempos, Andrew Jackson, Webster, Clay, Seward, Martin Van Buren, o flibusteiro Walker, Kossuth, Fitz Greene Halleck, Bryant, o Príncipe de Gales, Charles Dickens, os primeiros embaixadores japoneses, e muitas outras celebridades daquela época. Sempre algo novo ou animador; porém principalmente para mim a amplidão apressada e vasta daquelas intermináveis correntes humanas. Lembro-me de ter visto James Fenimore Cooper em uma sala de tribunal na rua Chambers, atrás da prefeitura, onde ele estava conduzindo uma causa judicial–(acho que era uma acusação de difamação que ele tinha apresentado contra alguém). Lembro-me também de ter visto Edgar A. Poe, e de ter uma pequena entrevista com ele (deve ter sido em 1845 ou 1846), em seu gabinete, segundo pavimento de um prédio de esquina (rua Duane ou Pearl). Ele era editor e proprietário ou parte proprietário do “Broadway Journal” [Diário da Broadway]. A visita foi sobre uma composição literária minha que ele tinha publicado. Poe foi muito cordial, de uma forma tranquila, apresentava-se bem em pessoa, vestimenta, etc. Tenho uma distinta e agradável recordação de sua aparência, voz, modo e assunto; muito gentil e humano, mas calado, talvez um pouco cansado. Considerando outra de minhas reminiscências, aqui na extremidade oeste, logo abaixo da rua Houston, vi uma vez (deve ter sido por volta de 1832, de um frio e brilhante dia de janeiro), um homem muito velho, curvado, frágil, mas corpulento, barbudo, envolto em ricas peles, com um gorro de arminho na cabeça, guiado e assistido, quase carregado, descendo os degraus de sua alta varanda (uma dúzia de amigos e criados, emulativos, cuidadosamente segurando, conduzindo-o) e depois erguido e enfiado em um suntuoso trenó, coberto com outras peles, para um passeio.O trenó era puxado pela mais bela parelha de cavalos que já vi. (Não precisas achar que os melhores animais são criados hoje em dia; nunca houve espécie de cavalo como há cinquênta anos em Long Island, ou no sul, ou na cidade de Nova Iorque; as pessoas buscavam espírito e vigor em um cavalo de corrida, não meramente velocidade domesticada.) Bem, eu, um garoto de talvez treze ou catorze anos, me detive e fitei longamente o espetáculo daquele velho senhor envolto em peles, rodeado de amigos e criados, e sua cuidadosa acomodação no trenó. Lembro dos cavalos animados, rilhando os dentes, o condutor com seu chicote, e um condutor-parceiro ao seu lado, por cautela extra. O velho senhor, objeto de tanta atenção, posso quase ver agora. Era John Jacob Astor.
Os anos de 1846, 1847, e dali em diante, vêem-me ainda na cidade de Nova Iorque, trabalhando como escritor e tipógrafo, com a minha costumeira boa saúde, e geralmente me divertindo.