Dias Exemplares

13. Passeios de Ônibus e Condutores

PASSEIOS DE ÔNIBUS E CONDUTORES

Uma fase daqueles dias não deve de modo algum ficar sem registro—a saber, os ônibus da Broadway, com seus condutores. Os veículos ainda (escrevo este parágrafo em 1881) dão uma parte do caráter da Broadway—as linhas da Quinta Avenida, Avenida Madison e rua Vinte e três ainda trafegam. Mas os dias de esplendor dos velhos palcos da Broadway, característicos e copiosos, terminaram. O Yellow-birds, o Red-birds, o Broadway original, o Quarta avenida, o Knickerbocker e mais uma dúzia de outros de vinte ou trinta anos atrás, todos se foram. E os homens, especialmente identificados com eles, e que davam vitalidade e significado a eles—os condutores—uma raça estranha, natural, perspicaz e maravilhosa–(não apenas Rabelais e Cervantes teriam exultado com eles, mas também Homero e Shakspere [sic])–como me lembro bem deles, e devo aqui dar uma palavra sobre eles. Quantas horas, manhãs e tardes—quantas noites divertidas eu tive–talvez em junho ou julho, no ar mais fresco—percorrendo toda extensão da Broadway, ouvindo alguma narrativa (e as mais vívidas narrativas já engendradas, e as mais raras imitações)–ou talvez eu declamando algum trecho tempestuoso de Júlio César ou Richard (podia-se gargalhar alto como se queria naquela atmosfera pesada, densa, sem interrupção). Sim, eu conhecia todos os condutores naquela época, Broadway Jack, Dressmaker, Balky Bill, George Storms, Old Elephant, seu irmão Young Elephant (que veio depois), Tippy, Pop Rice, Big Frank, Yellow Joe, Pete Callahan, Patsy Dee, e dúzias de outros; pois havia centenas. Eles tinham imensas qualidades, na maioria sensuais–comer, beber, mulheres–grande orgulho pessoal, à sua maneira–talvez alguns desleixos, aqui e ali, mas eu teria confiado na classe geral deles, em sua simples boa-vontade e honra, em qualquer circunstância. Não apenas para  camaradagem, e às vezes afeição—foram grandes estudos para mim também. (Suponho que os críticos vão rir com prazer, mas a influência daqueles passeios de ônibus e condutores na Broadway e declamações e escapadelas sem dúvida entraram na gestação de “Folhas de Relva”).

The Black Crook (1866), considerado por alguns o primeiro musical

12. Paisagens da Broadway

PAISAGENS DA BROADWAY

Broadway em 1885

Além da barca de Fulton, de vez em quando durante muitos anos, conheci e freqüentei a Broadway—essa célebre avenida de Nova Iorque de natureza humana repleta e mista, e de tantas pessoas insignes. Aqui eu vi, naqueles tempos, Andrew Jackson, Webster, Clay, Seward, Martin Van Buren, o flibusteiro Walker, Kossuth, Fitz Greene Halleck, Bryant, o Príncipe de Gales, Charles Dickens, os primeiros embaixadores japoneses, e muitas outras celebridades daquela época. Sempre algo novo ou animador; porém principalmente para mim a amplidão apressada e vasta daquelas intermináveis correntes humanas. Lembro-me de ter visto James Fenimore Cooper em uma sala de tribunal na rua Chambers, atrás da prefeitura, onde ele estava conduzindo uma causa judicial–(acho que era uma acusação de difamação que ele tinha apresentado contra alguém). Lembro-me também de ter visto Edgar A. Poe, e de ter uma pequena entrevista com ele (deve ter sido em 1845 ou 1846), em seu gabinete, segundo pavimento de um prédio de esquina (rua Duane ou Pearl). Ele era editor e proprietário ou parte proprietário do “Broadway Journal” [Diário da Broadway]. A visita foi sobre uma composição literária minha que ele tinha publicado. Poe foi muito cordial, de uma forma tranquila, apresentava-se bem em pessoa, vestimenta, etc. Tenho uma distinta e agradável recordação de sua aparência, voz, modo e assunto; muito gentil e humano, mas calado, talvez um pouco cansado. Considerando outra de minhas reminiscências, aqui na extremidade oeste, logo abaixo da rua Houston, vi uma vez (deve ter sido por volta de 1832, de um frio e brilhante dia de janeiro), um homem muito velho, curvado, frágil, mas corpulento, barbudo, envolto em ricas peles, com um gorro de arminho na cabeça, guiado e assistido, quase carregado, descendo os degraus de sua alta varanda (uma dúzia de amigos e criados, emulativos, cuidadosamente segurando, conduzindo-o) e depois erguido e enfiado em um suntuoso trenó, coberto com outras peles, para um passeio.O trenó era puxado pela mais bela parelha de cavalos que já vi. (Não precisas achar que os melhores animais são criados hoje em dia; nunca houve espécie de cavalo como há cinquênta anos em Long Island, ou no sul, ou na cidade de Nova Iorque; as pessoas buscavam espírito e vigor em um cavalo de corrida, não meramente velocidade domesticada.) Bem, eu, um garoto de talvez treze ou catorze anos, me detive e fitei longamente o espetáculo daquele velho senhor envolto em peles, rodeado de amigos e criados, e sua cuidadosa acomodação no trenó. Lembro dos cavalos animados, rilhando os dentes, o condutor com seu chicote, e um condutor-parceiro ao seu lado, por cautela extra. O velho senhor, objeto de tanta atenção, posso quase ver agora. Era John Jacob Astor.

John Jacob Astor, o primeiro multimilionário norte-americano

Os anos de 1846, 1847, e dali em diante, vêem-me ainda na cidade de Nova Iorque, trabalhando como escritor e tipógrafo, com a minha costumeira boa saúde, e geralmente me divertindo.

11. Minha Paixão Por Barcas

MINHA PAIXÃO POR BARCAS

Parque Battery

Morando no Brooklyn ou na cidade de Nova Iorque desse tempo em diante, minha vida, então, e ainda mais nos anos seguintes, foi curiosamente identificada com a barca de Fulton, já se tornando a maior de seu tipo no mundo por importância geral, volume, variedade, rapidez e caráter pitoresco. Quase diariamente, mais tarde (1850 a 1860), eu atravessava nos barcos, com frequência na casa do leme onde eu podia obter um esquadrinhamento completo, absorvendo manifestações, acompanhamentos, cercanias. Que correntes oceânicas, redemoinhos, abaixo–as grandes marés humanas também, com sempre mutáveis movimentos. Na verdade, sempre tive uma paixão por barcas; a mim elas propiciam poemas vivificantes, inimitáveis, transbordantes, infalíveis. O cenário do rio e da baía, por toda a ilha de Nova Iorque, a qualquer hora de um belo dia—as marés apressadas, respingantes—o panorama variável de vapores, de todos os tamanhos, com frequência uma fileira de grandes saindo com destino a portos distantes–as miríades de escunas de velas brancas, chalupas, esquifes, e iates maravilhosamente belos–os majestosos barcos de canal conforme contornavam Battery [a extremidade sul da ilha] e se aproximavam perto das 5, à tarde, em direção leste–a perspectiva em direção a Staten Island [bairro de N. I.], ou descendo The Narrows [estreito que separa Staten Island do Brooklyn], ou ao contrário subindo o Hudson—que repouso de espírito tais locais e experiências me deram anos atrás (e muitas vezes  desde então). Meus antigos amigos pilotos, os Balsirs, Johnny Cole, Ira Smith, William White e meu jovem amigo balseiro, Tom Gere–como me lembro bem de todos eles.

10. Crescimento–Saúde–Trabalho

CRESCIMENTO–SAÚDE–TRABALHO

Eu (1833-4-5) me transformei em um jovem forte e saudável (cresci rápido demais, aliás, era tão grande quanto um homem aos 15 ou 16). Nossa família nesse período mudou-se de volta para o interior, minha querida mãe muito doente por um longo tempo, mas se recuperou. Todos esses anos eu ia para Long Island, mais ou menos todo verão, ora leste, ora oeste, às vezes meses a fio. Aos 16, 17 e assim por diante, gostava de clubes de debates, e tive participação ativa neles, de maneira intermitente, no Brooklyn e em uma ou duas cidades interioranas na ilha. Um leitor muito onívoro de romances, nesses anos e posteriores, eu devorava tudo que encontrava. Aficionado de teatro, também, em Nova Iorque, ia sempre que podia—às vezes presenciando belas performances.
1836-7, trabalhei como tipógrafo em tipografias na cidade de Nova Iorque. Depois, quando tinha pouco mais de dezoito anos, e por algum tempo mais tarde, ia ensinar em escolas rurais nos condados de Queens e Suffolk, Long Island, e “me alojava nas redondezas”. (Esta última considero uma de minhas melhores experiências e mais profundas lições sobre a natureza humana nos bastidores, e no meio do povo.) Em ’39, ’40, iniciei e publiquei um jornal semanal em minha cidade natal, Huntington. Em seguida, retornando à cidade de Nova York e Brooklyn, continuei trabalhando como impressor e escritor, prosa na maior parte, mas com uma eventual tentativa em “poesia”.

9. Tipografia.–Antigo Brooklyn

TIPOGRAFIA.—ANTIGO BROOKLYN

Construção do Porto do Brooklyn, 1890

Após cerca de dois anos fui trabalhar em um jornal semanal e tipografia, para aprender o ofício. O jornal era o “Long Island Patriot”, de propriedade de S. E. Clements, que também era agente do correio. Um velho tipógrafo no escritório, William Hartshorne, uma figura revolucionária, que tinha visto Washington, era um amigo meu especial, e eu tive muitas conversas com ele sobre longos tempos passados. Os aprendizes, incluindo a mim, estávamos alojados com sua neta. Eu costumava sair ocasionalmente a passeio com o chefe, que era muito gentil conosco, os meninos; aos domingos, ele levava-nos todos a uma grande, velha e tosca igreja de pedra, tipo fortaleza, na rua Joralemon, perto de onde a prefeitura do Brooklyn está agora–(naquela época, vastos campos e estradas rurais estavam em todos os lugares ao redor[1]). Depois eu trabalhei no “Long Island Star”, jornal de Alden Spooner. Meu pai, todos esses anos, exercendo seu ofício de marceneiro e construtor, com sucesso variado. Havia uma família crescente de crianças–oito de nós–meu irmão Jesse o mais velho, eu o segundo, minhas queridas irmãs Mary e Hannah Louisa, meus irmãos Andrew, George, Thomas Jefferson, e depois meu irmão mais novo, Edward, nascido em 1835, e sempre bastante estropiado, como sou eu mesmo nesses últimos anos.


[1] Do Brooklyn daquela época (1830-1840), dificilmente resta alguma coisa, exceto as linhas das antigas ruas. A população estava então entre dez e doze mil. Por uma milha, a rua Fulton estava demarcada com magníficos olmeiros. O caráter do lugar era inteiramente rural. Como uma amostra de valores comparativos, pode ser mencionado que 25 acres no que é agora a parte mais cara da cidade, delimitada pelas avenidas Flatbush e Fulton, foram então comprados pelo Sr. Parmentier, um emigrante francês, por [US] $4000. Quem lembra dos antigos lugares como eram? Quem lembra dos velhos cidadãos daquela época? Entre os primeiros estavam as tavernas [pubs] de Smith & Wood, Coe Downing, e outras na balsa, a própria velha Balsa, a travessa Love, os Heights de então, a [baía de] Wallabout com a ponte de madeira, e a estrada fora, além da rua Fulton, até a antiga barreira de pedágio. Entre os últimos estavam os majestosos e amáveis General Jeremiah Johnson, com outros, Gabriel Furman, Rev. E. M. Johnson, Alden Spooner, Sr. Pierrepont, Sr. Joralemon, Samuel Willoughby, Jonathan Trotter, George Hall, Cyrus P. Smith, N. B. Morse, John Dikeman, Adrian Hegeman, William Udall, e o velho Sr. Duflon, com seu jardim militar.

8. Minha Primeira Leitura.–Lafayette

8. MINHA PRIMEIRA LEITURA.–LAFAYETTE

De 1824 a 1828 nossa família morou no Brooklyn, nas ruas Front, Cranberry e Johnson. Na última, meu pai construiu uma casa legal para morar, e depois outra na rua Tillary. Nós as ocupamos, uma após a outra, mas elas foram hipotecadas, e nós as perdemos. Lembro entretanto a visita de Lafayette[1]. Na maioria desses anos, eu freqüentava as escolas públicas. Deve ter sido por volta de 1829 ou 30 que fui com meu pai e minha mãe ouvir Elias Hicks pregar em um salão de baile em Brooklyn Heights. Mais ou menos na mesma época estava empregado quando menino em um escritório, de advocacia, pai e dois filhos, de Clarke, rua Fulton, perto da Orange. Eu tinha uma escrivaninha legal e um canto de janela para mim; Edward C. gentilmente me ajudava com minha caligrafia e composição, e (o evento marcante da minha vida até aquele tempo), assinou para mim uma grande biblioteca circulante. Por um tempo eu já me deleitava com leitura romântica de todos os tipos; primeiro, “As Mil e Uma Noites”, todos os volumes, um regalo e tanto. Depois, com excursões em muitas outras direções, absorvi os romances de Walter Scott, um após o outro, e sua poesia (e continuo a apreciar  romances e poesia  até hoje).

Lafayette


[1] “Na visita do General Lafayette a este país, em 1824, ele veio ao Brooklyn com grande pompa, e percorreu a cidade. As crianças das escolas foram juntar-se à recepção. Um edifício para uma biblioteca pública gratuita para jovens estava então começando e Lafayette consentiu em parar no caminho e assentar a pedra fundamental. Inúmeras crianças chegando ao terreno, onde uma enorme escavação irregular para o prédio já estava cavada, cercada de montes de pedra áspera, vários cavalheiros auxiliavam em erguer as crianças para locais seguros ou convenientes para verem a cerimônia. Entre os demais, Lafayette, também ajudando as crianças, pegou Walt Whitman, de cinco anos de idade, e apertando a criança por um momento ao seu peito, e dando-lhe um beijo, conduziu-o a um local seguro na escavação.”–John Burroughs.

7. Paumanok, e Minha Vida Nela Quando Criança e Jovem

7. PAUMANOK, E MINHA VIDA NELA QUANDO CRIANÇA E JOVEM

Digna de completa e detalhada investigação de fato esta Paumanok (para dar ao local seu nome aborígine[1],) se estendendo a leste pelos condados de Kings, Queens e Suffolk, 120 milhas no total–ao norte o estreito de Long Island, uma série bonita, pitoresca e variada de enseadas, istmos e expansões marinhas, como, por cem milhas até cabo Oriente. No lado do oceano, a grande baía do sul pontilhada de inúmeras elevações, a maioria pequenas, algumas bem grandes, ocasionalmente longas faixas de areia se afastando de mil metros até uma milha e meia da costa. Enquanto que de vez em quando, como em Rockaway e para o leste ao longo dos Hamptons [Southampton e East Hampton], a praia atinge direto a ilha, o mar precipitando-se sem intervenção. Vários faróis no litoral leste; uma longa história de naufrágios, tragédias, algumas até ultimamente. Quando rapaz, estive na atmosfera e tradições de muitos desses naufrágios–de um ou dois quase um observador. Ao largo da praia de Hempstead, por exemplo, foi a perda do navio “México” em 1840 (citado em “Os Adormecidos“, em Folhas de Relva). E em Hampton, alguns anos mais tarde, a destruição do brigue ”Elizabeth”, um caso terrível, em um dos piores vendavais de inverno, onde Margaret Fuller afundou, com seu marido e filho.

Foto de Long Island - NASA

Nas faixas de areia mais afastadas ou litoral, esta baía do sul é comparativamente rasa em todos os lugares; em todos os invernos toda a camada de gelo [fica] na superfície. Quando menino, com frequência eu saía com um amigo ou dois, nesses campos congelados, com trenó manual, machado e lança para enguia, atrás de montes de enguias. Fazíamos buracos no gelo, às vezes encontrando uma mina de enguias, e enchendo nossos cestos com grande espécimes, gordos, frescos, alvos, carnosos. As cenas, o gelo, puxar o trenó manual, fazer buracos, espetar as enguias, etc., eram naturalmente a exata diversão que é a mais cara à meninice. As praias dessa baía, inverno e verão, e meus afazeres lá na infância estão tecidos em toda Folhas de Relva. Um divertimento que eu gostava muito era ir em grupo na baía no verão para recolher ovos de gaivota. (As gaivotas põem dois ou três ovos, mais da metade do tamanho de ovos de galinha, direto na areia, e deixam o calor do sol chocá-los.)
O extremo leste de Long Island, a região da baía Peconic, eu conhecia muito bem também—naveguei mais de uma vez em torno da ilha Shelter, e até Montauk–passei muitas horas na colina Turtle perto do antigo farol, no ponto extremo, contemplando a ondulação incessante do Atlântico. Eu costumava gostar de ir lá e confraternizar com os pescadores de enchovas, ou as turmas anuais de compradores de robalo. Às vezes, ao longo da península de Montauk (que tem cerca de 15 milhas de comprimento, e bom pastoreio), encontrava os estranhos pastores, desgrenhados, parcialmente bárbaros, naquela época vivendo lá inteiramente distantes da sociedade ou civilização, responsáveis, naquelas ricas pastagens, por grandes rebanhos de cavalos, vacas ou ovelhas, de propriedade de fazendeiros das cidades do leste. Às vezes, também, os poucos remanescentes indígenas, ou mestiços, naquele período largados na península de Montauk, mas agora acredito totalmente extintos.
Mais no meio da ilha estavam as extensas planícies Hempstead, naquele tempo (1830-’40) bem semelhantes a pradarias, abertas, desabitadas, bastante áridas, cobertas de arbustos ‘mata-bezerro’ [planta venenosa] e mirtilo, porém abundantes em pasto favorável para o gado, principalmente vacas leiteiras, que pastavam lá às centenas, até mesmo milhares, e à tardinha (as planícies também eram propriedade das cidades, e essa era uma utilização delas em comum), poderiam ser vistas tomando o caminho de casa, se separando regularmente nos lugares certos. Tenho frequentemente estado à beira dessas planícies perto do pôr-do-sol, e posso ainda recordar na imaginação as intermináveis filas de vacas, e ouvir a música dos chocalhos de lata ou cobre retinindo longe ou perto, e aspirando o frescor do doce e levemente aromático ar da noite, e observar o poente.

Pela mesma região da ilha, mas mais a leste, se estendiam amplos trechos centrais de pinheiro e chaparro [carvalho americano anão] (carvão era largamente produzido aqui), monótonos e áridos. Mas tive muitos bons dias ou meio-dias, vagando por aquelas solitárias encruzilhadas, inalando o aroma peculiar e selvagem. Aqui, e por toda a ilha e suas praias, passei momentos muitos anos, todas as estações, às vezes cavalgando, às vezes andando de barco, mas geralmente a pé (sempre fui, naquele tempo, um bom caminhante), absorvendo campos, praias, incidentes marítimos, personagens, os habitantes da baía, fazendeiros, pilotos–sempre tive abundante familiaridade com esses últimos, e com pescadores–ia todo verão em viagens de barco, sempre gostei da praia de mar vazia, o lado sul, e tenho algumas de minhas horas mais felizes nela até hoje.
Conforme escrevo, toda a experiência vem a mim após o intervalo de quarenta e tantos anos–o suave sussurrar das ondas, e o odor salino—tempos de meninice, cavar mariscos, descalço e com as calças enroladas—me arrastando córrego abaixo, o perfume de prados de junca, o barco de feno, e o ensopado e pescarias;–ou, de anos posteriores, pequenas viagens descendo e saindo da baía de Nova York, nos barcos-piloto. Nesses mesmos anos posteriores, também, enquanto estava morando no Brooklyn (1836-’50), eu ia regularmente toda semana nas estações amenas até Coney Island, naquele tempo uma longa praia vazia e erma, que eu tinha toda para mim, e onde eu amava, após o banho, correr para um lado e pro outro na areia compacta, e declamar Homero ou Shakespeare à arrebentação e às gaivotas a cada hora. Mas estou avançando rápido demais, e devo ater-me mais ao meu registro.


[1] “Paumanok (ou Paumanake ou Paumanack, o nome indígena de Long Island), com mais de cem milhas de extensão; em forma de peixe—abundante em costa marítima, arenosa, tempestuosa, pouco convidativa, o horizonte infinito, o ar forte demais para inválidos, as baías um recanto maravilhoso para aves aquáticas, os campos do lado sul cobertos de feno salino, o solo da ilha geralmente duro, mas bom para a alfarrobeira, o pomar de macieiras, e a amora-preta, e com inúmeras nascentes da água mais doce do mundo. Anos atrás, entre os habitantes da baía—uma raça forte, selvagem, agora extinta, ou melhor, inteiramente modificada, um nativo de Long Island era chamado de Paumanacker ou Crioulo-Paumanacker.”–John Burroughs.

6. Dois Antigos Interiores Familiares

DOIS ANTIGOS INTERIORES FAMILIARES

Da vida doméstica e interna do meio de Long Island, naquele tempo e um pouco antes, aqui estão duas amostras:

“Os Whitmans, no início do presente século, viviam em uma longa casa de fazenda de um pavimento e meio, imensamente forrada de madeira, que ainda está de pé. Uma grande cozinha coberta de fumaça, com vasto piso de lareira e chaminé, formava uma extremidade da casa. A existência de escravidão em Nova Iorque naquela época, e a posse de cerca de doze ou quinze escravos, servos da casa e campo, pela família, deram às coisas um aspecto bem patriarcal. Os negrinhos muito jovens podiam ser vistos, um aglomeramento deles, perto do pôr do sol, na cozinha, agachados em um círculo no chão, comendo sua ceia de bolo de milho e leite. Na casa, nos alimentos e móveis, tudo era rude, mas substancioso. Não havia tapetes ou fogões, e nem café, e chá e açúcar somente para as mulheres. Crepitantes fogos à lenha davam calor e luz nas noites de inverno. Carne de porco, aves, carne bovina, e todos os legumes e grãos habituais eram abundantes. Sidra era a bebida comum dos homens, e utilizada nas refeições. As roupas eram essencialmente tecidas em casa. Viagens eram feitas por homens e mulheres a cavalo. Ambos os sexos labutavam com suas próprias mãos–os homens na fazenda–as mulheres na casa e em torno dela. Os livros eram escassos. O exemplar  anual do almanaque era um divertimento, e era estudado atentamente nas longas noites de inverno. Não devo esquecer de mencionar que ambas as duas famílias estavam próximas o bastante do mar para contemplá-lo dos lugares altos, e ouvir em horas silenciosas o bramido da arrebentação; esta, após uma tempestade, emitindo um som peculiar à noite. Naquele tempo, todos os trabalhadores, homens e mulheres, iam freqüentemente divertir-se na praia e banho de mar, e os homens em expedições práticas para cortar feno [de área salina], e para catar marisco e pescar.”—Notas de John Burroughs.

“Os antepassados de Walt Whitman, em ambos os lados paterno e materno, mantinham uma boa mesa, supriam a hospitalidade, convenções, e uma excelente reputação social na região, e eram com frequência de distinta personalidade. Se permitido o espaço, gostaria de considerar alguns dos homens dignos de especial descrição; e ainda mais algumas das mulheres. Sua bisavó do lado paterno, por exemplo, era uma grande mulher morena, que viveu até uma idade muito avançada. Ela fumava tabaco, montava a cavalo como um homem, dominava o cavalo mais indócil, e, ao tornar-se uma viúva posteriormente, saía todo dia nas terras da fazenda, frequentemente montada, direcionando o trabalho de seus escravos, com linguagem na qual, em ocasiões agitadas, imprecações não eram poupadas. As duas avós imediatas eram, no melhor sentido, mulheres superiores. A materna (Amy Williams antes do casamento) era uma Amiga, ou Quacre, de doce, sensato caráter, de propensão doméstica e profundamente intuitiva e espiritual. A outra, (Hannah Brush), tinha um caráter igualmente nobre, talvez  mais forte, viveu até idade avançada, teve uma boa família de filhos, era uma dama natural, foi no início da vida uma professora, e teve grande solidez mental. O próprio W. W. dá muita importância às mulheres de sua ancestralidade.”–O mesmo.

Desses antecedentes de pessoas e cenas, eu nasci em 31 de maio de 1819. E agora para me estender um pouco sobre a localidade em si—já que as fases sucessivas de crescimento de minha infância, meninice, juventude e idade adulta foram todas passadas em Long Island, que às vezes sinto como se tivesse incorporado. Eu perambulei, quando  menino e homem, e vivi em quase todas as partes, do Brooklyn ao Cabo Montauk.

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