22. Na Linha de Frente
NA LINHA DE FRENTE
Falmouth, VA., em frente a Fredericksburgh, 21 de dezembro 1862.–Inicio minhas visitas aos hospitais de campo no exército do Potomac. Passo uma boa parte do dia em uma grande mansão de tijolos às margens do Rappahannock, usada como um hospital desde a batalha–parece ter recebido apenas os piores casos. Do lado de fora, ao pé de uma árvore, numa distância de dez metros da frente da casa, noto uma pilha de pés, pernas, braços, mãos, etc., amputados, uma carga completa para uma carroça de um cavalo. Vários corpos mortos jazem perto, cada um coberto com seu cobertor de lã marrom. Perto da entrada, em direção ao rio, estão sepulturas recentes, principalmente de oficiais, seus nomes em tábuas de barris ou tábuas quebradas, enfiadas na terra suja.(A maioria desses corpos foram posteriormente retirados e transportados ao norte, para seus amigos.) A grande mansão está completamente lotada no andar de cima e no de baixo, tudo improvisado, sem sistema, tudo ruim o bastante, mas não tenho nenhuma dúvida de que é o melhor que pode ser feito; todos os ferimentos bem ruins, alguns assustadores, os homens com suas roupas velhas, sujas e sangrentas. Alguns dos feridos são soldados e oficiais rebeldes, prisioneiros. Um deles, um Mississippiano, um capitão, gravemente atingido na perna, falei com ele algum tempo; me pediu papéis, que lhe dei. (Eu o vi três meses depois, em Washington, com sua perna amputada, passando bem.) Andei pelos quartos, nos andares de baixo e de cima. Alguns homens estavam morrendo. Eu nada tinha para dar naquela visita, mas escrevi algumas cartas aos parentes em seus lares, mães, &c. Também falei com três ou quatro, que pareciam mais suscetíveis a isso, e precisando disso.
21. O Estupor Passa—Outra Coisa Começa
O ESTUPOR PASSA—OUTRA COISA COMEÇA
Mas a hora, o dia, a noite passaram, e o que quer que retorne, uma hora, um dia, uma noite como aquela não pode nunca retornar de novo. O Presidente, recuperando-se, começa naquela mesma noite–severamente, rapidamente inicia a tarefa de reorganizar suas forças, e colocando-se em posições para trabalho futuro e mais seguro. Se não houvesse mais nada de Abraham Lincoln com o qual a história pudesse carimbá-lo, é o suficiente mandá-lo com sua coroa de flores para a memória de todo tempo futuro, que ele suportou aquela hora, aquele dia, mais amargo que fel–de fato um dia de crucificação–que não o subjugou–que ele inabalavelmente enfrentou, e resolveu levantar a si mesmo e à União para além dele.
Então os grandes jornais de Nova Iorque apareceram de uma vez (começando naquela noite, e prosseguindo na manhã seguinte, e incessantemente por muitos dias depois) com líderes que soaram pelo país o toque mais alto, mais reverberante dos mais claros clarins, cheios de encorajamento, esperança, inspiração, inflexível desafio. Aqueles magníficos editoriais! eles nunca fatigaram nem por uma quinzena. O “Herald” os iniciou—lembre-me bem dos artigos. O “Tribune” também foi convincente e inspirador—e o “Times”, “Evening Post”, e outros jornais principais, não ficaram nem um pouco para trás. Eles vieram em boa hora, pois eram necessários. Pois, na humilhação de Bull Run, o sentimento popular no norte, a partir de sua extrema arrogância, recuou à profundidade da
tristeza e apreensão.
(De todos os dias da guerra, há dois especialmente que nunca posso esquecer. Esses foram o dia seguinte à notícia, em Nova Iorque e Brooklyn, daquela primeira derrota de Bull Run, e o dia da morte de Abraham Lincoln. Eu estava em casa no Brooklyn em ambas as ocasiões. No dia do assassinato ouvimos a notícia muito cedo de manhã. Mãe preparava o desjejum—e outras refeições depois—como sempre; mas nem um bocado foi ingerido durante todo o dia por nenhum de nós. Cada um de nós bebeu meia xícara de café; isto foi tudo. Pouco foi dito. Compramos todos os jornais de manhã e de tarde, e os extras freqüentes desse período, e os passamos silenciosamente um para o outro).
19. Sentimento de desprezo
SENTIMENTO DE DESPREZO
Entretanto, mesmo após o bombardeio de Sumter, a gravidade da revolta, e o poder e a vontade dos Estados escravocratas por uma resistência militar forte e continuada à autoridade nacional não foram percebidos no Norte em absoluto, exceto por uns poucos. Nove décimos da população dos Estados livres observavam a rebelião, conforme iniciada na Carolina do Sul, a partir de um sentimento metade desprezo, e a outra metade composta de raiva e incredulidade. Não foi pensado que seria aderida por Virginia, Carolina do Norte, ou Geórgia. Um grande e cauteloso oficial federal previu que cessaria “em sessenta dias”, e as pessoas geralmente acreditaram na previsão. Lembro-me de ter falado sobre isso em uma balsa de Fulton com o prefeito de Brooklyn, que disse que apenas “esperava que os cabeças-quentes do Sul cometeriam algum ato ostensivo de resistência, e como eles seriam então imediatamente e bem efetivamente esmagados, nunca ouviríamos falar de secessão de novo–mas ele temia que eles nunca teriam a coragem de realmente fazer alguma coisa.” Lembro-me, também, que algumas companhias do Thirteen Brooklyn, que se reuniam no arsenal da cidade, e começaram por isso como soldados na ativa por trinta dias, foram todos providos com pedaços de corda, amarradas conspicuamente aos canos de seus mosquetes, para trazer com eles de volta cada homem um prisioneiro do audacioso Sul, a ser conduzido em um laço, no retorno prematuro e triunfante de nossos homens!
18. Revolta Nacional e Voluntariado
REVOLTA NACIONAL E VOLUNTARIADO
Eu disse em algum lugar que as três Presidentiads [Presidências] precedentes a 1861 mostraram como a fraqueza e a maldade de governantes são permitidas tanto aqui na América, sob influência republicana, quanto na Europa, sob influência dinástica. Mas o que posso dizer dessa luta rápida e esplêndida com a escravidão da secessão, o arqui-inimigo personificado, o instante em que ele inequivocamente mostrou seu rosto? A vulcânica sublevação da nação, após a fuzilaria sobre a bandeira em Charleston, provou como certo algo que havia estado anteriormente em grande dúvida, e de imediato substancialmente resolveu a questão da desunião. Na minha opinião, isso vai ficar como o espetáculo mais grandioso e mais animador já concedido em qualquer era, antiga ou nova, para o progresso político e a democracia. Não foi o que veio à tona apenas–embora tenha sido importante–mas o que isso indicou abaixo, que foi de importância eterna. No fundo dos abismos da humanidade do Novo Mundo tinha se formado e endurecido um fundamento primordial de vontade de União nacional, determinada e na maioria, recusando-se a ser adulterada ou debatida, enfrentando todas as emergências, e capaz de em qualquer época estourar todos os laços de superfície, e irromper como um terremoto. É, de fato, a melhor lição do século, ou da América, e é um poderoso privilégio ter sido parte dela. (Dois grandes espetáculos, provas imortais da democracia, inigualadas em toda a história do passado, são fornecidas pela guerra de secessão–uma no início, a outra em seu encerramento. Essas são, a sublevação geral, voluntária, armada, e a dispersão pacífica e harmoniosa dos exércitos no verão de 1865.)
17. Início da Guerra de Secessão
INÍCIO DA GUERRA DE SECESSÃO
A notícia do ataque ao Forte Sumter e à bandeira no porto de Charleston, C.S. (Carolina do Sul), foi recebida na cidade de Nova Iorque tarde da noite (13 de abril de 1861), e foi imediatamente expedida em edições extras dos jornais. Eu tinha ido à ópera na Rua Quatorze, naquela noite, e após o espetáculo estava andando pela Broadway cerca de meia-noite, em direção ao Brooklyn, quando ouvi à distância os gritos dos jornaleiros, que vinham num instante agitados e estridentes pela rua, correndo de um lado para outro ainda mais furiosamente do que o habitual. Comprei um extra e atravessei para o hotel Metropolitan (Niblo’s), onde as grandes lâmpadas ainda estavam ardendo claramente, e, com uma multidão de outros, que se juntaram de improviso, li a notícia, que era evidentemente autêntica. Para o benefício de alguns que não tinham jornais, um de nós leu o telegrama em voz alta, enquanto todos ouviam silenciosa e atentamente. Nenhuma observação foi feita por ninguém da multidão, que tinha aumentado para trinta ou quarenta, mas todos ficaram um minuto ou dois, eu lembro, antes de se dispersarem. Quase posso vê-los lá agora, sob as lâmpadas à meia-noite de novo.
16. Fontes de Caráter–resultados–1860
FONTES DE CARÁTER–RESULTADOS–1860
Para resumir o que precede desde o início (e, naturalmente, muito, muito mais sem registro), estimo três principais fontes e marcas formativas para o meu próprio caráter, agora solidificado para o bem ou para o mal, e suas conseqüências posteriores literária e outras–a linhagem materna trazida para cá dos longínquos Países Baixos, por exemplo, em primeiro lugar (sem dúvida a melhor)–a tenacidade subterrânea e a estrutura óssea central (obstinação, voluntariedade), que adquiri dos meus elementos paternais ingleses, em segundo–e a combinação de meu local de nascimento, Long Island, praias, cenas da infância, absorções, com os fervilhantes Brooklyn e Nova Iorque–com, suponho, as minhas experiências posteriores na deflagração da secessão, em terceiro.
Pois, em 1862, assustado pela notícia de que meu irmão George, um oficial do regimento 51 de voluntários de Nova Iorque, tinha sido gravemente ferido (primeira batalha de Fredericksburg, 13 de dezembro), fui às pressas para o campo de guerra em Virginia. Mas devo retornar um pouco.
15. Por Oito Anos
Por Oito Anos
Em 1848, ’49, eu estava ocupado como editor do jornal “diário Eagle”, no Brooklyn. Nesse último ano parti em uma cômoda viagem e expedição de trabalho (meu irmão Jeff comigo) por todos os Estados centrais e pelos Rios Ohio e Mississipi. Vivi algum tempo em Nova Orleans, e trabalhei lá na redação do jornal “diário Crescente”. Depois de um tempo, retornei lentamente pelo norte, subindo o Mississipi, e rodeando pelos grandes lagos, Michigan, Huron e Erie, pelas Cataratas do Niágara e baixo Canadá, finalmente regressando pelo centro de Nova Iorque e descendo o rio Hudson; viajando no total provavelmente 8000 milhas na viagem de ida e volta. Em 1851, ’53, ocupado em construção de casas no Brooklyn. (Por um pouco da primeira parte desse tempo na impressão de um jornal diário e semanal, ”O Freeman”). Em 1855, perdi meu querido pai nesse ano por morte. Principiei a colocar “Folhas de Relva” para impressão definitivamente, no escritório de impressão dos meus amigos, os irmãos Rome, no Brooklyn, após muitas inclusões e retiradas nos manuscritos–(tive grande dificuldade em deixar de fora os toques “poéticos” comuns, mas finalmente consegui). Estou agora (1856, ‘57) passando pelo meu 37º ano.
14. Peças e Óperas Também
Peças e Óperas Também
E certos atores e cantores tiveram muito a ver com essa estória. Ao longo de todos esses anos, de vez em quando, eu freqüentava os teatros o antigo Park, o Bowery, o Broadway e o da praça Chatham, e as óperas italianas no da rua Chambers, no Astor ou no Battery—em muitas estações eu estava na lista gratuita, escrevendo para jornais, mesmo quando bem jovem. O antigo teatro Park–que nomes, reminiscências, as palavras recordam! Placide, Clarke, Sra. Vernon, Fisher, Clara F., Sra. Wood, Sra. Seguin, Ellen Tree, Hackett, o Kean mais jovem, Macready, Sra. Richardson, Rice–cantores, atores de tragédia e comédia. Que atuações perfeitas! Henry Placide em “A Velha Guarda de Napoleão” ou “Avô Whitehead”– ou “O Marido Provocado”, de Cibber, com Fanny Kemble fazendo Lady Townley–ou Sheridan Knowles em sua própria peça “Virginius”–ou o inimitável Power em “Nascido Para a Boa Sorte”. Estes, e muitos mais, nos anos da juventude e posteriores. Fanny Kemble–nome para evocar grandes cenas mímicas além do mais–talvez a maior. Lembro-me bem de sua representação de Bianca em “Fazio,” e Marianna em “A Esposa”. Nada melhor jamais foi exibido em nenhum palco–os veteranos de todas as nações disseram isso, e meu coração e cabeça de menino sentiram isso em cada minúscula célula. Essa dama tinha recém amadurecido, era forte, melhor do que simplesmente bonita, nascida da ribalta, tinha tido três anos de prática em Londres e em cidades britânicas, e então ela veio para dar à América aquela jovem maturidade e força otimista em seu meio-dia, ou melhor, manhã, resplendor. Foi minha boa sorte vê-la quase toda noite em que ela atuou no antigo Park–certamente em todos os seus personagens principais.
Ouvi, nesses anos, bem representadas, todas as óperas italianas e outras em voga, “Sonnambula”, “Os Puritanos”, ”Der Freischutz”, “Huguenotes”, “Fille d’Regiment”, ”Fausto”, “Etoile du Nord”, “Poliuto”, e outras. ”Ernani”, “Rigoletto” e “Trovatore”, de Verdi, ”Lucia” ou “Favorita” ou “Lucrezia”, de Donnizetti, e “Massaniello”, de Auber, ou “William Tell” e “Gazza Ladra”, de Rossini, estavam entre meus prazeres especiais. Ouvi [Marietta] Alboni toda vez que ela cantou em Nova Iorque e arredores– também Grisi, o tenor Mario, e o barítono Badiali, o mais refinado do mundo.
Esta paixão musical seguiu minha paixão pelo teatro. Quando menino, ou rapaz, eu tinha visto (lendo cuidadosamente no dia anterior), quase todos os dramas teatrais de Shakspere (sic), representados maravilhosamente bem. Não posso mesmo ainda conceber nada mais refinado do que Booth o velho em “Richard Terceiro”, ou “Lear” (não sei qual foi o melhor), ou Iago (ou Pescara, ou Sir Giles Overreach, para sair de Shakspere)–ou Tom Hamblin em “Macbeth” ou Clarke o velho, tanto como o fantasma em “Hamlet”, quanto como Próspero em “A Tempestade”, com a Sra. Austin fazendo Ariel, e Peter e Richings como Caliban. Em seguida outros dramas, e grandes atores neles, Forrest como Metamora ou Damon ou Brutus–John R. Scott como Tom Cringle ou Rolla—ou Lady Gay Spanker de Charlotte Cushman em ”London Assurance.” Depois, alguns anos mais tarde, no Castle Garden, Battery, ainda relembro temporadas esplêndidas da trupe musical Havana sob Maretzek—a bela banda, as frescas brisas marinhas, a vocalização insuperável–Steffanone, Bosio, Truffi, Marini em “Marino Faliero”, “Don Pasquale “, ou” Favorita”. Nunca houve melhor atuação ou canto em Nova Iorque. Foi também aqui que depois ouvi Jenny Lind. (Battery—suas correlações passadas–que contos aquelas velhas árvores e passeios e diques poderiam relatar!)