17. Início da Guerra de Secessão
INÍCIO DA GUERRA DE SECESSÃO
A notícia do ataque ao Forte Sumter e à bandeira no porto de Charleston, C.S. (Carolina do Sul), foi recebida na cidade de Nova Iorque tarde da noite (13 de abril de 1861), e foi imediatamente expedida em edições extras dos jornais. Eu tinha ido à ópera na Rua Quatorze, naquela noite, e após o espetáculo estava andando pela Broadway cerca de meia-noite, em direção ao Brooklyn, quando ouvi à distância os gritos dos jornaleiros, que vinham num instante agitados e estridentes pela rua, correndo de um lado para outro ainda mais furiosamente do que o habitual. Comprei um extra e atravessei para o hotel Metropolitan (Niblo’s), onde as grandes lâmpadas ainda estavam ardendo claramente, e, com uma multidão de outros, que se juntaram de improviso, li a notícia, que era evidentemente autêntica. Para o benefício de alguns que não tinham jornais, um de nós leu o telegrama em voz alta, enquanto todos ouviam silenciosa e atentamente. Nenhuma observação foi feita por ninguém da multidão, que tinha aumentado para trinta ou quarenta, mas todos ficaram um minuto ou dois, eu lembro, antes de se dispersarem. Quase posso vê-los lá agora, sob as lâmpadas à meia-noite de novo.
14. Peças e Óperas Também
Peças e Óperas Também
E certos atores e cantores tiveram muito a ver com essa estória. Ao longo de todos esses anos, de vez em quando, eu freqüentava os teatros o antigo Park, o Bowery, o Broadway e o da praça Chatham, e as óperas italianas no da rua Chambers, no Astor ou no Battery—em muitas estações eu estava na lista gratuita, escrevendo para jornais, mesmo quando bem jovem. O antigo teatro Park–que nomes, reminiscências, as palavras recordam! Placide, Clarke, Sra. Vernon, Fisher, Clara F., Sra. Wood, Sra. Seguin, Ellen Tree, Hackett, o Kean mais jovem, Macready, Sra. Richardson, Rice–cantores, atores de tragédia e comédia. Que atuações perfeitas! Henry Placide em “A Velha Guarda de Napoleão” ou “Avô Whitehead”– ou “O Marido Provocado”, de Cibber, com Fanny Kemble fazendo Lady Townley–ou Sheridan Knowles em sua própria peça “Virginius”–ou o inimitável Power em “Nascido Para a Boa Sorte”. Estes, e muitos mais, nos anos da juventude e posteriores. Fanny Kemble–nome para evocar grandes cenas mímicas além do mais–talvez a maior. Lembro-me bem de sua representação de Bianca em “Fazio,” e Marianna em “A Esposa”. Nada melhor jamais foi exibido em nenhum palco–os veteranos de todas as nações disseram isso, e meu coração e cabeça de menino sentiram isso em cada minúscula célula. Essa dama tinha recém amadurecido, era forte, melhor do que simplesmente bonita, nascida da ribalta, tinha tido três anos de prática em Londres e em cidades britânicas, e então ela veio para dar à América aquela jovem maturidade e força otimista em seu meio-dia, ou melhor, manhã, resplendor. Foi minha boa sorte vê-la quase toda noite em que ela atuou no antigo Park–certamente em todos os seus personagens principais.
Ouvi, nesses anos, bem representadas, todas as óperas italianas e outras em voga, “Sonnambula”, “Os Puritanos”, ”Der Freischutz”, “Huguenotes”, “Fille d’Regiment”, ”Fausto”, “Etoile du Nord”, “Poliuto”, e outras. ”Ernani”, “Rigoletto” e “Trovatore”, de Verdi, ”Lucia” ou “Favorita” ou “Lucrezia”, de Donnizetti, e “Massaniello”, de Auber, ou “William Tell” e “Gazza Ladra”, de Rossini, estavam entre meus prazeres especiais. Ouvi [Marietta] Alboni toda vez que ela cantou em Nova Iorque e arredores– também Grisi, o tenor Mario, e o barítono Badiali, o mais refinado do mundo.
Esta paixão musical seguiu minha paixão pelo teatro. Quando menino, ou rapaz, eu tinha visto (lendo cuidadosamente no dia anterior), quase todos os dramas teatrais de Shakspere (sic), representados maravilhosamente bem. Não posso mesmo ainda conceber nada mais refinado do que Booth o velho em “Richard Terceiro”, ou “Lear” (não sei qual foi o melhor), ou Iago (ou Pescara, ou Sir Giles Overreach, para sair de Shakspere)–ou Tom Hamblin em “Macbeth” ou Clarke o velho, tanto como o fantasma em “Hamlet”, quanto como Próspero em “A Tempestade”, com a Sra. Austin fazendo Ariel, e Peter e Richings como Caliban. Em seguida outros dramas, e grandes atores neles, Forrest como Metamora ou Damon ou Brutus–John R. Scott como Tom Cringle ou Rolla—ou Lady Gay Spanker de Charlotte Cushman em ”London Assurance.” Depois, alguns anos mais tarde, no Castle Garden, Battery, ainda relembro temporadas esplêndidas da trupe musical Havana sob Maretzek—a bela banda, as frescas brisas marinhas, a vocalização insuperável–Steffanone, Bosio, Truffi, Marini em “Marino Faliero”, “Don Pasquale “, ou” Favorita”. Nunca houve melhor atuação ou canto em Nova Iorque. Foi também aqui que depois ouvi Jenny Lind. (Battery—suas correlações passadas–que contos aquelas velhas árvores e passeios e diques poderiam relatar!)
12. Paisagens da Broadway
PAISAGENS DA BROADWAY
Além da barca de Fulton, de vez em quando durante muitos anos, conheci e freqüentei a Broadway—essa célebre avenida de Nova Iorque de natureza humana repleta e mista, e de tantas pessoas insignes. Aqui eu vi, naqueles tempos, Andrew Jackson, Webster, Clay, Seward, Martin Van Buren, o flibusteiro Walker, Kossuth, Fitz Greene Halleck, Bryant, o Príncipe de Gales, Charles Dickens, os primeiros embaixadores japoneses, e muitas outras celebridades daquela época. Sempre algo novo ou animador; porém principalmente para mim a amplidão apressada e vasta daquelas intermináveis correntes humanas. Lembro-me de ter visto James Fenimore Cooper em uma sala de tribunal na rua Chambers, atrás da prefeitura, onde ele estava conduzindo uma causa judicial–(acho que era uma acusação de difamação que ele tinha apresentado contra alguém). Lembro-me também de ter visto Edgar A. Poe, e de ter uma pequena entrevista com ele (deve ter sido em 1845 ou 1846), em seu gabinete, segundo pavimento de um prédio de esquina (rua Duane ou Pearl). Ele era editor e proprietário ou parte proprietário do “Broadway Journal” [Diário da Broadway]. A visita foi sobre uma composição literária minha que ele tinha publicado. Poe foi muito cordial, de uma forma tranquila, apresentava-se bem em pessoa, vestimenta, etc. Tenho uma distinta e agradável recordação de sua aparência, voz, modo e assunto; muito gentil e humano, mas calado, talvez um pouco cansado. Considerando outra de minhas reminiscências, aqui na extremidade oeste, logo abaixo da rua Houston, vi uma vez (deve ter sido por volta de 1832, de um frio e brilhante dia de janeiro), um homem muito velho, curvado, frágil, mas corpulento, barbudo, envolto em ricas peles, com um gorro de arminho na cabeça, guiado e assistido, quase carregado, descendo os degraus de sua alta varanda (uma dúzia de amigos e criados, emulativos, cuidadosamente segurando, conduzindo-o) e depois erguido e enfiado em um suntuoso trenó, coberto com outras peles, para um passeio.O trenó era puxado pela mais bela parelha de cavalos que já vi. (Não precisas achar que os melhores animais são criados hoje em dia; nunca houve espécie de cavalo como há cinquênta anos em Long Island, ou no sul, ou na cidade de Nova Iorque; as pessoas buscavam espírito e vigor em um cavalo de corrida, não meramente velocidade domesticada.) Bem, eu, um garoto de talvez treze ou catorze anos, me detive e fitei longamente o espetáculo daquele velho senhor envolto em peles, rodeado de amigos e criados, e sua cuidadosa acomodação no trenó. Lembro dos cavalos animados, rilhando os dentes, o condutor com seu chicote, e um condutor-parceiro ao seu lado, por cautela extra. O velho senhor, objeto de tanta atenção, posso quase ver agora. Era John Jacob Astor.
Os anos de 1846, 1847, e dali em diante, vêem-me ainda na cidade de Nova Iorque, trabalhando como escritor e tipógrafo, com a minha costumeira boa saúde, e geralmente me divertindo.