Gentil

ORIGENS DA TENTATIVA DE SECESSÃO

 ORIGENS DA TENTATIVA DE SECESSÃO

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Walt Whitman

Não o assunto todo, mas alguns fatos secundários que são dignos de nota hoje e qualquer dia.

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   CONSIDERO a guerra de tentativa de secessão, 1860-1865, não como uma luta de dois povos distintos e separados, mas um conflito (que acontece com frequência, e muito feroz) entre as paixões e os paradoxos de uma única e mesma identidade–talvez os únicos termos sobre os quais essa identidade pudesse realmente se tornar fundida, homogênea e duradoura.  A origem e as condições a partir das quais ela surgiu estão cheias de lições, cheias de avisos ainda para a República–e sempre estará.  As origens subjacentes e principais são ainda singularmente ignoradas.  Os Estados do Norte foram realmente tão responsáveis por essa guerra (em seus precedentes, fundações, instigações,) quanto o Sul. Deixe-me tentar mostrar minha visão.  Da idade de 21 a 40 (1840-60), eu era interessado nos movimentos políticos desta terra, não tanto como um participante, mas como um observador e um eleitor regular nas eleições.  Acho que eu estava familiarizado com as molas da ação, e seu funcionamento, não só na cidade de Nova York e Brooklyn, mas entendi-as em todo o país, conforme tinha feito calmas viagens por todos os Estados do meio-atlântico [Nova Iorque, Pensilvânia, Nova Jersey, e também Delaware e Maryland], e parcialmente através daqueles do oeste e  sul, descendo até New Orleans, cidade em que residi por algum tempo.  (Eu estava lá no final da Guerra Mexicana [Mexicano-americana, 1846-48] e vi e conversei com o General Taylor, e os outros generais e oficiais, que foram festejados e retidos por vários dias em seu retorno vitorioso daquela expedição.)

   É claro que muitas coisas muito contraditórias, especialidades, desenvolvimentos, pontos de vista constitucionais, etc., compuseram a origem da guerra–mas o fato geral mais significativo pode ser melhor indicado e declarado como segue: Durante os 25 anos anteriores à revolta, as controladoras convenções “Democráticas” nomeadoras de nossa República—começando em suas primárias em subdistritos ou distritos, e assim a expandir para condados, cidades poderosas, Estados, e às grandes convenções Presidenciais nomeadoras—começaram a representar e ser compostas de mais e mais materiais pútridos e perigosos. Deixe-me dar uma agenda, ou lista, de uma dessas convenções representativas de um longo tempo anterior, e inclusiva, daquela que nomeou Buchanan.   (Lembre-se que elas tinham se tornado as fontes e tecidos do corpo político norte-americano, formando, por assim dizer, o sangue total, legislação, cargos, etc.) Uma dessas convenções, de 1840 a 1860, exibiu um espetáculo como nunca poderia ser visto, exceto em nossa própria época e nestes Estados.  Os membros que a compunham eram, sete oitavos deles, do pior tipo de funcionários chorões e exibidos, pedidores de emprego, cafetões, pessoas mal-intencionadas, conspiradores, assassinos, gigolôs, funcionários de alfândega, empreiteiros, editores promíscuos, cães [spaniels] bem treinados para levar e buscar, atravessadores, infiéis, separatistas, terroristas, saqueadores de correio, caçadores de escravos, traficantes de escravos, fantoches do presidente, fantoches de presidentes futuros, espiões, subornadores, conciliadores,  lobistas, parasitas, apostadores arruinados, jogadores expulsos, financiadores de políticas, jogadores de monte, duelistas, portadores de armas escondidas, homens surdos, homens espinhentos, com cicatrizes interiores de doença vil, pomposos por fora com correntes de ouro  feitas do dinheiro do povo e dinheiro de prostitutas entrelaçados; homens rastejantes e serpentinos, as cardaduras piolhentas e os vendedores de liberdade natos da terra.  E de onde eles vieram?  De quintais e bares; das alfândegas, das delegacias, dos correios, e casinos; da casa do presidente, da cadeia, do quartel general da polícia ou bombeiros; a partir de inomináveis lugares remotos, onde a desunião demoníaca foi incubada à meia-noite; de carros funerários políticos, e dos caixões dentro, e das mortalhas dentro dos caixões; dos tumores e abscessos da terra; dos esqueletos e caveiras nas catacumbas dos asilos federais; e das chagas correntes das grandes cidades.  Tais [elementos], eu digo, formaram, ou absolutamente controlaram a formação de, todo o pessoal, da atmosfera, alimento e quilo; de nossa política municipal, estadual, e nacional–substancialmente permeando, manipulando, decidindo, e manejando tudo–legislação, nomeações, eleições, “sentimento público”, etc.–enquanto as grandes massas do povo, agricultores, mecânicos e comerciantes, estavam indefesos em suas garras. Estas condições eram em sua maioria predominantes no norte e oeste, e especialmente em Nova York e Filadélfia; e os líderes do sul (maus o bastante, mas de uma ordem muito mais elevada) fizeram um acordo e se afiliaram, e as usaram. É estranho que uma tempestade tenha se seguido a tais mórbidas e sufocantes camadas de nuvem?

 

   Digo, então, que o que, como foi recém esboçado, anunciado, e preparou o solo para a revolta da secessão, deve ser exposto, por todo o futuro, como a lição mais instrutiva na história da política norte-americana—o aviso e o farol mais significativos para as próximas gerações.  Digo que os mandatos da décima sexta, décima sétima e décima oitava Presidências Norte-Americanas tem mostrado que a vilania e a superficialidade dos governantes (mantidas pela máquina de grandes partidos) são tão apropriadas para estes Estados como para qualquer despotismo estrangeiro, reinado, ou império–não há um pingo de diferença.  A história deve registrar esses três Mandatos Presidenciais, e especialmente as administrações de Fillmore e Buchanan, como até agora nossas advertência e vergonha máximas. Nunca foram publicamente exibidos homens mais deformados, medíocres, chorões, inconfiáveis, falsos. Nunca foram estes Estados tão insultados, e tentados à traição. Todos os principais objetivos para os quais o governo foi estabelecido foram abertamente negados. A igualdade perfeita da escravidão com a liberdade foi ostensivamente pregada no norte—não somente isso, mas a superioridade da escravidão. Foi proposto que o comércio de escravos fosse renovado. Em todos os lugares reprovações e desentendimentos–em todos os lugares exasperações e humilhações. (A disputa da escravidão está liquidada–e a guerra terminou faz tempo—no entanto, essas condições pútridas, muitas delas, não existem ainda? Não resultam ainda em doenças, febres, feridas–não de guerra e de hospitais do exército–mas as feridas e doenças da paz?)

   Dessas influências genéricas, principalmente em Nova York, Pensilvânia, Ohio, etc., surgiu a tentativa de desunião. A um exame filosófico, a febre maligna dessa guerra mostra suas fontes embrionárias, e os nutrientes originais de sua vida e crescimento, no norte. Digo que a secessão, abaixo da superfície, originou-se e foi trazida à maturidade nos Estados livres. Refiro-me às duas dezenas de anos anteriores a 1860. Minha opinião deliberada agora é que, se por ocasião da abertura da disputa, a questão abstrata da dualidade de escravidão e tranquilidade pudesse ter sido submetida ao voto popular direto, contra seu oposto, elas teriam triunfantemente vencido na maioria dos Estados do norte–nas grandes cidades, lideradas por Nova York e Filadélfia, por maiorias tremendas. Os acontecimentos de 1861 espantaram todos norte e sul, e estouraram todas as profecias e cálculos como bolhas. Mas mesmo então, e durante toda a guerra, o fato austero permanece de que (não só o norte o suprimiu, mas) a causa da secessão teve numericamente tantos simpatizantes nos Estados livres quanto nos rebeldes.

 

   Quanto à escravidão, abstrata e praticamente (sua ideia, e a determinação de estabelecê-la e expandi-la, especialmente nos novos territórios, a América futura), é muito comum, repito, identificá-la exclusivamente com o sul. Na verdade, até o início da guerra, o país inteiro tinha uma visão igual sobre ela. O norte tinha sido no mínimo tão culpado, se não mais culpado; e o leste e oeste também. O ex-Presidentes e Congressos haviam sido culpados—os governadores e assembleias legislativas de todos os Estados do norte haviam sido culpados, e os prefeitos de Nova York e de outras cidades do norte tinham todos sido culpados–suas mãos estavam todas manchadas. E conforme o conflito tomou forma decidida, é difícil dizer qual classe, os líderes separatistas do sul ou do norte, estava mais espantada e decepcionada com a falta de ação do elemento de secessão dos estados livres, tão amplamente existente e levado em conta por esses líderes, de ambos os lados.

   Tanto para esse ponto, e para o norte. Quanto à criação e instigação direta da guerra, no próprio sul, não tentarei descrever interiores ou complicações. Por trás de tudo, a verdadeira teoria sem dúvida foi e é que a ideia era uma determinação resoluta e arrogante por parte dos escravagistas radicais, os Calhounites [seguidores de John C. Calhoun, vice-presidente entre 1825 e 1832, que defendia que os estados poderiam anular legislação federal que considerassem inconstitucional], de levar a porção do pacto constitucional dos direitos dos estados ao seu limite mais distante, e nacionalizar a escravidão, ou então romper a União, e fundar um novo império, com a escravidão como seu alicerce. (Se bem sucedida, esta tentativa poderia–não tenho certeza, mas poderia—ter destruído não somente nossa república Norte-Americana, em proporções de primeira grandeza ou algo assim, em si mesma e seu prestígio, mas por eras, pelo menos, a causa da Liberdade e Igualdade em todos os lugares–e teria sido o maior triunfo da reação, e o mais severo golpe à liberdade política e todas as outras liberdades possíveis de conceber. Seu pior resultado teria subjugado os próprios Estados do sul.) Que nosso experimento democrático nacional, princípio e máquina pudessem suportar triunfantemente um choque tamanho, e que a Constituição pudesse resisti-lo, como um navio a uma tempestade, e sair dele tão saudável e inteira como antes, é de longe já a prova mais cabal da estabilidade desse experimento, a Democracia, e desses princípios, e dessa Constituição.

 

   Da própria guerra, conhecemos na aparência o que foi feito.  O número de mortos e feridos pode ser contado ou aproximado, a dívida publicada e registrada, os eventos materiais narrados, etc. Enquanto isso, as eleições continuam, leis são aprovadas, partidos políticos digladiam-se, publicam suas plataformas, etc, da mesma forma como antes. Mas resultados imensos, não só na política, mas na literatura, poemas, e sociologia, estão, sem dúvida, aguardando ainda não-formados no futuro. Quanto tempo vão esperar não posso dizer. O cortejo da retrospectiva da história nos mostra, desde eras, toda a Europa marchando nas cruzadas, aqueles levantes armados do povo, agitados por uma simples ideia, à mais grandiosa tentativa–quando uma vez perplexos nela, retornando, em intervalos, duas, três vezes, e de novo. Uma série insuperada de acontecimentos revolucionários, influências. No entanto, foram necessários mais de duzentos anos para as sementes das cruzadas germinar, antes de começar mesmo a brotar. Duzentos anos elas jazeram, dormindo, não mortas, mas adormecidas no chão.  Então, delas, infalivelmente, artes, viagens, navegação, política, literatura, liberdade, espírito de aventura, investigação, tudo se elevou, cresceu, e de forma constante acelerou-se ao que estamos vendo no presente.  Muito lá atrás, aquela enorme agitação- luta das cruzadas se projeta, como, sem dúvida, o embrião, o início, da elevada preeminência do experimento, da civilização e do empreendimento que as nações europeias tem, desde então, mantido, e dos quais estes Estados são os herdeiros.

   Outra ilustração–(a história está cheia delas, embora a própria guerra, a vitória da União, e as relações de nossos Estados iguais apresentem características às quais não há precedentes no passado.) A conquista da Inglaterra há oito séculos pelos Franco-normandos, a obliteração do antigo (em muitos aspectos precisando muito de obliteração), o Livro Domesday [censo da Inglaterra executado por Guilherme I em 1086], e a partilha da terra–a velha bagagem militar removida, até mesmo por sangue e violência implacável, e uma nova gênese progressista estabelecida, novas sementes plantadas—o tempo tem revelado de forma bastante clara que, amarga como foi, todas essas foram a série mais salutar de revoluções que poderia possivelmente ter acontecido. Delas, e por elas, principalmente, têm vindo, da Inglaterra Álbica, Romana e Saxônica–e sem elas não poderiam ter vindo–não só a Inglaterra desses 500 anos até o presente, e do presente–mas estes Estados . Nem, exceto por esse terrível deslocamento e transtorno, estes Estados, como são, existiriam hoje.

   É certo para mim que os Estados Unidos, em virtude dessa guerra e de seus resultados, e através disso e deles somente, estão prontos para iniciar, e certamente devem iniciar, sua carreira genuína na história, não mais como dividido e dilacerado em suas condições essenciais, mas uma grande Nação homogênea–todos estados livres–uma unidade moral e política em variedade, tal como a natureza mostra em suas obras físicas mais grandiosas, e como muito maior do que qualquer trabalho simples da Natureza, como o moral e o político, o trabalho do homem, sua mente, sua alma, são, em seu sentido mais sublime, maiores do que o meramente físico.  Dessa guerra, não somente a nacionalidade dos Estados escapou de ser estrangulada, mas mais do que qualquer um dos demais, e, na minha opinião, mais do que o norte em si, o coração vital e o alento do sul escaparam como da pressão de um pesadelo geral, e devem entrar doravante em uma vida, desenvolvimento e liberdade ativa, cujas realidades são certas no futuro, não obstante todos os dissabores sulistas do momento–um desenvolvimento que não poderia ter sido alcançado por condições menores, ou por qualquer outro meio que não essa severa lição, ou algo equivalente a ela. E eu prevejo que o sul deve ainda superar o norte.

 

22. Na Linha de Frente

NA LINHA DE FRENTE

Falmouth, VA., em frente a Fredericksburgh, 21 de dezembro 1862.–Inicio minhas visitas aos hospitais de campo no exército do Potomac. Passo uma boa parte do dia em uma grande mansão de tijolos às margens do Rappahannock, usada como um hospital desde a batalha–parece ter recebido apenas os piores casos. Do lado de fora, ao pé de uma árvore, numa distância de dez metros da frente da casa, noto uma pilha de pés, pernas, braços, mãos, etc., amputados, uma carga completa para uma carroça de um cavalo. Vários corpos mortos jazem perto, cada um coberto com seu cobertor de lã marrom. Perto da entrada, em direção ao rio, estão sepulturas recentes, principalmente de oficiais, seus nomes em tábuas de barris ou tábuas quebradas, enfiadas na terra suja.(A maioria desses corpos foram posteriormente retirados e transportados ao norte, para seus amigos.) A grande mansão está completamente lotada no andar de cima e no de baixo, tudo improvisado, sem sistema, tudo ruim o bastante, mas não tenho nenhuma dúvida de que é o melhor que pode ser feito; todos os ferimentos bem ruins, alguns assustadores, os homens com suas roupas velhas, sujas e sangrentas. Alguns dos feridos são soldados e oficiais rebeldes, prisioneiros. Um deles, um Mississippiano, um capitão, gravemente atingido na perna, falei com ele algum tempo; me pediu papéis, que lhe dei. (Eu o vi três meses depois, em Washington, com sua perna amputada, passando bem.) Andei pelos quartos, nos andares de baixo e de cima. Alguns homens estavam morrendo. Eu nada tinha para dar naquela visita, mas escrevi algumas cartas aos parentes em seus lares, mães, &c. Também falei com três ou quatro, que pareciam mais suscetíveis a isso, e precisando disso.

O Exército do Potomac

21. O Estupor Passa—Outra Coisa Começa

O ESTUPOR PASSA—OUTRA COISA COMEÇA

Mas a hora, o dia, a noite passaram, e o que quer que retorne, uma hora, um dia, uma noite como aquela não pode nunca retornar de novo. O Presidente, recuperando-se, começa naquela mesma noite–severamente, rapidamente inicia a tarefa de reorganizar suas forças, e colocando-se em posições para trabalho futuro e mais seguro. Se não houvesse mais nada de Abraham Lincoln com o qual a história pudesse carimbá-lo, é o suficiente mandá-lo com sua coroa de flores para a memória de todo tempo futuro, que ele suportou aquela hora, aquele dia, mais amargo que fel–de fato um dia de crucificação–que não o subjugou–que ele inabalavelmente enfrentou, e resolveu levantar a si mesmo e à União para além dele.

Então os grandes jornais de Nova Iorque apareceram de uma vez (começando naquela noite, e prosseguindo na manhã seguinte, e incessantemente por muitos dias depois) com líderes que soaram pelo país o toque mais alto, mais reverberante dos mais claros clarins, cheios de encorajamento, esperança, inspiração, inflexível desafio. Aqueles magníficos editoriais! eles nunca fatigaram nem por uma quinzena. O “Herald” os iniciou—lembre-me bem dos artigos. O “Tribune” também foi convincente e inspirador—e o “Times”, “Evening Post”, e outros jornais principais, não ficaram nem um pouco para trás. Eles vieram em boa hora, pois eram necessários. Pois, na humilhação de Bull Run, o sentimento popular no norte, a partir de sua extrema arrogância, recuou à profundidade da
tristeza e apreensão.

(De todos os dias da guerra, há dois especialmente que nunca posso esquecer. Esses foram o dia seguinte à notícia, em Nova Iorque e Brooklyn, daquela primeira derrota de Bull Run, e o dia da morte de Abraham Lincoln. Eu estava em casa no Brooklyn em ambas as ocasiões. No dia do assassinato ouvimos a notícia muito cedo de manhã. Mãe preparava o desjejum—e outras refeições depois—como sempre; mas nem um bocado foi ingerido durante todo o dia por nenhum de nós. Cada um de nós bebeu meia xícara de café; isto foi tudo. Pouco foi dito. Compramos todos os jornais de manhã e de tarde, e os extras freqüentes desse período, e os passamos silenciosamente um para o outro).

20. Batalha de Bull Run, Julho, 1861

BATALHA DE BULL RUN, JULHO, 1861

Todo esse tipo de sentimento estava destinado a ser preso e revertido por um choque terrível—a primeira batalha de Bull Run–certamente, tal como a conhecemos hoje, um dos mais singulares combates conhecidos. (Todas as batalhas, e seus resultados, são mais questões de acidente do que geralmente se pensa; mas essa foi do começo ao fim um infortúnio, um acaso. Cada lado achou que tinha ganho, até o último momento. Um tinha, de fato, o mesmo direito de ser derrotado que o outro. Através de uma ficção, ou série de ficções, as forças nacionais, no último momento, explodiram em pânico e fugiram do campo.) As tropas derrotadas começaram a afluir em Washington pela Long Bridge em pleno dia na segunda-feira,  22–que chuviscou o tempo inteiro. O sábado e domingo da batalha (20, 21) tinham sido ressecados e quentes ao extremo–a poeira, a sujeira e a fumaça, em camadas, fermentavam, seguidas por outras camadas novamente fermentadas, absorvidas por aquelas almas agitadas–suas roupas todas saturadas com o pó da terra preenchendo o ar–incitadas em todos os lugares nas estradas secas e campos pisados pelos regimentos, fervilhando de carroças, peças de artilharia, &c.–todos os homens com este revestimento de trevas, suor e chuva, agora recuando, afluindo sobre Long Bridge–uma marcha horrível de vinte milhas, retornando a Washington perplexos, humilhados, apavorados. Onde estão as jactâncias, e as  orgulhosas bazófias com que vocês partiram? Onde estão suas bandeiras, e suas bandas de música, e suas cordas para trazer de volta seus prisioneiros? Bem, não há uma banda tocando–e não há uma flâmula que não se grude envergonhada e frouxa ao seu mastro.

O sol nasce, mas não brilha. Os homens aparecem, inicialmente de modo esparso e envergonhados o bastante, então mais numerosos, na ruas de Washington–aparecem na avenida Pensilvânia, e nos degraus e entradas de porões. Eles chegam em turbas desordenadas, alguns em esquadrões, grupos extraviados, companhias. Ocasionalmente, um raro regimento, em perfeita ordem, com seus comandantes (algumas lacunas, mortos, os  verdadeiros bravos) marchando em silêncio, com rostos abatidos, austeros, fatigados até a prostração, tudo preto e sujo, mas cada homem com seu mosquete, e andando vivo; mas estes são as exceções. As calçadas da avenida Pennsylvania, da rua XIV, &c., lotadas, congestionadas de cidadãos, pretinhos, funcionários, todo mundo, espectadores; mulheres nas janelas, expressões curiosas dos rostos, conforme aqueles grupos de soldados cobertos de sujeira lá (não terminarão nunca?) passam; mas nada é dito, sem comentários; (metade dos nossos espectadores são secessionistas do tipo mais peçonhento–não dizem nada; mas o demônio aparece com escárnio em seus rostos). Durante a manhã Washington é invadida por essa multidão heterogênea de soldados derrotados–objetos esquisitos, olhos e rostos estranhos, encharcados (a chuva constante garoa o dia todo) e terrivelmente desgastados, famintos, fatigados, pés cobertos de bolhas.  Boas pessoas (mas não muitas delas também) servem alguma bóia para eles. Colocam caldeirões no fogo, para sopa, para café. Arrumam mesas na calçada—carregamentos de pães são adquiridos, rapidamente cortados em pedaços robustos. Eis aqui duas senhoras idosas, bonitas, as primeiras na cidade em cultura e charme, elas ficam com um suprimento de comes e bebes em uma mesa improvisada de tabuão tosco, e distribuem alimento, e reabastecem o estoque a cada meia hora durante todo esse dia; e lá na chuva elas se postam, ativas, silenciosas, de cabelos brancos, e doam alimento, embora as lágrimas escorram por suas faces, quase sem intervalo, o tempo todo. Em meio à emoção profunda, multidões e movimento, e ânsia desesperada, parece estranho ver muitos, muitos mesmo, dos soldados dormindo–no meio de tudo, dormindo profundamente. Eles desabam em qualquer lugar, nos degraus das casas, perto de porões ou cercas, na calçada, à parte em algum lote vago, e dormem profundamente. Um pobre garoto de dezessete ou dezoito anos jaz ali, na varanda de uma grande casa; ele dorme tão calmamente, tão profundamente. Alguns agarram seus mosquetes firmemente, mesmo dormindo. Alguns em esquadrões; companheiros, irmãos, bem próximos–e sobre eles, conforme jazem, lugubremente verte a chuva.

Conforme passava a tarde, e chegava a noite, as ruas, os bares, grupos em todos os lugares, ouvintes, interlocutores, histórias terríveis, fantasmas, peças de artilharia disfarçadas, nosso regimento todo cortado, etc.–estórias e contadores de estórias, empolados, gabando-se, centros vãos de multidões na rua. Resolução, masculinidade, parecem ter abandonado Washington. O hotel principal, Willard’s, está cheio de dragonas–cerrado, apertado, carregado de dragonas. (Vejo os oficiais, e devo ter uma palavrinha com eles. Eis vós aí, oficiais!–mas onde estão vossas companhias? onde estão vossos homens? Incompetentes! nunca contai-me de chances de batalha, de ter se perdido, e assim por diante. Acho que isso é vosso trabalho, esta retirada, afinal. Esquivai, enfatuai-vos, mostrai vossa afetação nos salões suntuosos e bares do Willard’s, ou em qualquer lugar– nenhuma explicação vos salvará. Bull Run é vosso trabalho; se tivésseis tido a metade ou um décimo da dignidade de vossos homens, isto jamais teria acontecido.)
Enquanto isso, em Washington, entre as grandes pessoas e sua comitiva, uma mistura de terrível consternação, insegurança, raiva, vergonha, desamparo, e embrutecedora decepção. O pior não é só iminente, mas já está aqui. Em poucas horas–talvez antes da próxima refeição—os generais secessionistas, com suas hordas vitoriosas, estarão sobre nós. O sonho de humanidade, a alardeada União que pensamos tão forte, tão inexpugnável–vede! afigura-se já esmagada como um prato de porcelana. Uma amarga, amarga hora—talvez a orgulhosa América jamais conhecerá uma hora assim de novo. Ela deve fazer as malas e fugir—não há tempo a perder. Aqueles brancos palácios– o capitólio abobadado lá na colina, tão imponente sobre as árvores–devem ser esquecidos–ou destruídos primeiro? Pois é certo que a conversa entre alguns dos magnatas e diretores e funcionários e oficiais em todo lugar, por vinte e quatro horas dentro e em torno de Washington após Bull Run, era alta e indisfarçada para se render mais e mais, e colocar no lugar o comando sulista, e Lincoln prontamente abdicar e partir. Se os oficiais e as forças secessionistas tivessem prosseguido imediatamente e por um ousado movimento napoleônico tivessem entrado em Washington no primeiro dia (ou mesmo no segundo), eles poderiam ter conseguido as coisas à maneira, e uma poderosa facção do norte a apoiá-los. Um de nossos coronéis de regresso expressou em público naquela noite, em meio a uma multidão de oficiais e cavalheiros em uma sala lotada, a opinião de que era inútil lutar, que os sulistas tinham tornado sua posição inequívoca, e que o melhor caminho para o governo nacional buscar era renunciar a qualquer tentativa de pará-los, e admiti-los novamente na liderança, nas melhores condições que eles estavam dispostos a conceder. Nem uma voz foi levantada contra esta sentença, em meio àquela grande multidão de oficiais e cavalhiros. (O fato é, aquela hora foi uma das três ou quatro dessas crises que tivemos então e depois, durante as flutuações de quatro anos, quando olhos humanos pareciam tanto ver a mesma probabilidade do último suspiro da União quanto vê-la continuar.)

19. Sentimento de desprezo

SENTIMENTO DE DESPREZO

Entretanto, mesmo após o bombardeio de Sumter, a gravidade da revolta, e o poder e a vontade dos Estados escravocratas por uma resistência militar forte e continuada à autoridade nacional não foram percebidos no Norte em absoluto, exceto por uns poucos. Nove décimos da população dos Estados livres observavam a rebelião, conforme iniciada na Carolina do Sul, a partir de um sentimento metade desprezo, e a outra metade composta de raiva e incredulidade. Não foi pensado que seria aderida por Virginia, Carolina do Norte, ou Geórgia. Um grande e cauteloso oficial federal previu que cessaria “em sessenta dias”, e as pessoas geralmente acreditaram na previsão. Lembro-me de ter falado sobre isso em uma balsa de Fulton com o prefeito de Brooklyn, que disse que apenas “esperava que os cabeças-quentes do Sul cometeriam algum ato ostensivo de resistência, e como eles seriam então imediatamente e bem efetivamente esmagados, nunca ouviríamos falar de secessão de novo–mas ele temia que eles nunca teriam a coragem de realmente fazer alguma coisa.” Lembro-me, também, que algumas companhias do Thirteen Brooklyn, que se reuniam no arsenal da cidade, e começaram  por isso  como soldados na ativa por trinta dias, foram todos providos com pedaços de corda, amarradas conspicuamente aos canos de seus mosquetes, para trazer com eles de volta cada homem um prisioneiro do audacioso Sul, a ser conduzido em um laço, no retorno prematuro e triunfante de nossos homens!

18. Revolta Nacional e Voluntariado

REVOLTA NACIONAL E VOLUNTARIADO

Eu disse em algum lugar que as três Presidentiads [Presidências] precedentes a 1861 mostraram como a fraqueza e a maldade de governantes são permitidas tanto aqui na América, sob influência republicana, quanto na Europa, sob influência dinástica. Mas o que posso dizer dessa luta rápida e esplêndida com a escravidão da secessão, o arqui-inimigo personificado, o instante em que ele inequivocamente mostrou seu rosto? A vulcânica sublevação da nação, após a fuzilaria sobre a bandeira em Charleston, provou como certo algo que havia estado anteriormente em grande dúvida, e de imediato  substancialmente resolveu a questão da desunião. Na minha opinião, isso vai ficar como o espetáculo mais grandioso e mais animador já concedido em qualquer era, antiga ou nova, para o progresso político e a democracia. Não foi o que veio à tona apenas–embora tenha sido importante–mas o que isso indicou abaixo, que foi de importância eterna. No fundo dos abismos da humanidade do Novo Mundo tinha se formado e endurecido um fundamento primordial de vontade de União nacional, determinada e na maioria, recusando-se a ser adulterada ou debatida, enfrentando todas as emergências, e capaz de em qualquer época estourar todos os laços de superfície, e irromper como um terremoto. É, de fato, a melhor lição do século, ou da América, e é um poderoso privilégio ter sido parte dela. (Dois grandes espetáculos, provas imortais da democracia, inigualadas em toda a história do passado, são fornecidas pela guerra de secessão–uma no início, a outra em seu encerramento. Essas são, a sublevação geral, voluntária, armada, e a dispersão pacífica e harmoniosa dos exércitos no verão de 1865.)

17. Início da Guerra de Secessão

INÍCIO DA GUERRA DE SECESSÃO

A notícia do ataque ao Forte Sumter e à bandeira no porto de Charleston, C.S. (Carolina do Sul), foi recebida na cidade de Nova Iorque tarde da noite (13 de abril de 1861), e foi imediatamente expedida em edições extras dos jornais. Eu tinha ido à ópera na Rua Quatorze, naquela noite, e após o espetáculo estava andando pela Broadway cerca de meia-noite, em direção ao Brooklyn, quando ouvi à distância os gritos dos jornaleiros, que vinham num instante agitados e estridentes pela rua, correndo de um lado para outro ainda mais furiosamente do que o habitual. Comprei um extra e atravessei para o hotel Metropolitan (Niblo’s), onde as grandes lâmpadas ainda estavam ardendo claramente, e, com uma multidão de outros, que se juntaram de improviso, li a notícia, que era evidentemente autêntica. Para o benefício de alguns que não tinham jornais, um de nós leu o telegrama em voz alta, enquanto todos ouviam silenciosa e atentamente. Nenhuma observação foi feita por ninguém da multidão, que tinha aumentado para trinta ou quarenta, mas todos ficaram um minuto ou dois, eu lembro, antes de se dispersarem. Quase posso vê-los lá agora, sob as lâmpadas à meia-noite de novo.

Monumento Nacional Fort Sumter

16. Fontes de Caráter–resultados–1860

FONTES DE CARÁTER–RESULTADOS–1860

Para resumir o que precede desde o início (e, naturalmente, muito, muito mais sem registro), estimo três principais fontes e marcas formativas para o meu próprio caráter, agora solidificado para o bem ou para o mal, e suas conseqüências posteriores literária e outras–a linhagem materna trazida para cá dos longínquos Países Baixos, por exemplo, em primeiro lugar (sem dúvida a melhor)–a tenacidade subterrânea e a estrutura óssea central (obstinação, voluntariedade), que adquiri dos meus elementos paternais ingleses, em segundo–e a combinação de meu local de nascimento, Long Island, praias, cenas da infância, absorções, com os fervilhantes Brooklyn e Nova Iorque–com, suponho, as minhas experiências posteriores na deflagração da secessão, em terceiro.

Pois, em 1862, assustado pela notícia de que meu irmão George, um oficial do regimento 51 de voluntários de Nova Iorque, tinha sido gravemente ferido (primeira batalha de Fredericksburg, 13 de dezembro), fui às pressas para o campo de guerra em Virginia. Mas devo retornar um pouco.

Batalha de Fredericksburg - Kurz and Allison.

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