7. Paumanok, e Minha Vida Nela Quando Criança e Jovem

7. PAUMANOK, E MINHA VIDA NELA QUANDO CRIANÇA E JOVEM

Digna de completa e detalhada investigação de fato esta Paumanok (para dar ao local seu nome aborígine[1],) se estendendo a leste pelos condados de Kings, Queens e Suffolk, 120 milhas no total–ao norte o estreito de Long Island, uma série bonita, pitoresca e variada de enseadas, istmos e expansões marinhas, como, por cem milhas até cabo Oriente. No lado do oceano, a grande baía do sul pontilhada de inúmeras elevações, a maioria pequenas, algumas bem grandes, ocasionalmente longas faixas de areia se afastando de mil metros até uma milha e meia da costa. Enquanto que de vez em quando, como em Rockaway e para o leste ao longo dos Hamptons [Southampton e East Hampton], a praia atinge direto a ilha, o mar precipitando-se sem intervenção. Vários faróis no litoral leste; uma longa história de naufrágios, tragédias, algumas até ultimamente. Quando rapaz, estive na atmosfera e tradições de muitos desses naufrágios–de um ou dois quase um observador. Ao largo da praia de Hempstead, por exemplo, foi a perda do navio “México” em 1840 (citado em “Os Adormecidos“, em Folhas de Relva). E em Hampton, alguns anos mais tarde, a destruição do brigue ”Elizabeth”, um caso terrível, em um dos piores vendavais de inverno, onde Margaret Fuller afundou, com seu marido e filho.

Foto de Long Island - NASA

Nas faixas de areia mais afastadas ou litoral, esta baía do sul é comparativamente rasa em todos os lugares; em todos os invernos toda a camada de gelo [fica] na superfície. Quando menino, com frequência eu saía com um amigo ou dois, nesses campos congelados, com trenó manual, machado e lança para enguia, atrás de montes de enguias. Fazíamos buracos no gelo, às vezes encontrando uma mina de enguias, e enchendo nossos cestos com grande espécimes, gordos, frescos, alvos, carnosos. As cenas, o gelo, puxar o trenó manual, fazer buracos, espetar as enguias, etc., eram naturalmente a exata diversão que é a mais cara à meninice. As praias dessa baía, inverno e verão, e meus afazeres lá na infância estão tecidos em toda Folhas de Relva. Um divertimento que eu gostava muito era ir em grupo na baía no verão para recolher ovos de gaivota. (As gaivotas põem dois ou três ovos, mais da metade do tamanho de ovos de galinha, direto na areia, e deixam o calor do sol chocá-los.)
O extremo leste de Long Island, a região da baía Peconic, eu conhecia muito bem também—naveguei mais de uma vez em torno da ilha Shelter, e até Montauk–passei muitas horas na colina Turtle perto do antigo farol, no ponto extremo, contemplando a ondulação incessante do Atlântico. Eu costumava gostar de ir lá e confraternizar com os pescadores de enchovas, ou as turmas anuais de compradores de robalo. Às vezes, ao longo da península de Montauk (que tem cerca de 15 milhas de comprimento, e bom pastoreio), encontrava os estranhos pastores, desgrenhados, parcialmente bárbaros, naquela época vivendo lá inteiramente distantes da sociedade ou civilização, responsáveis, naquelas ricas pastagens, por grandes rebanhos de cavalos, vacas ou ovelhas, de propriedade de fazendeiros das cidades do leste. Às vezes, também, os poucos remanescentes indígenas, ou mestiços, naquele período largados na península de Montauk, mas agora acredito totalmente extintos.
Mais no meio da ilha estavam as extensas planícies Hempstead, naquele tempo (1830-’40) bem semelhantes a pradarias, abertas, desabitadas, bastante áridas, cobertas de arbustos ‘mata-bezerro’ [planta venenosa] e mirtilo, porém abundantes em pasto favorável para o gado, principalmente vacas leiteiras, que pastavam lá às centenas, até mesmo milhares, e à tardinha (as planícies também eram propriedade das cidades, e essa era uma utilização delas em comum), poderiam ser vistas tomando o caminho de casa, se separando regularmente nos lugares certos. Tenho frequentemente estado à beira dessas planícies perto do pôr-do-sol, e posso ainda recordar na imaginação as intermináveis filas de vacas, e ouvir a música dos chocalhos de lata ou cobre retinindo longe ou perto, e aspirando o frescor do doce e levemente aromático ar da noite, e observar o poente.

Pela mesma região da ilha, mas mais a leste, se estendiam amplos trechos centrais de pinheiro e chaparro [carvalho americano anão] (carvão era largamente produzido aqui), monótonos e áridos. Mas tive muitos bons dias ou meio-dias, vagando por aquelas solitárias encruzilhadas, inalando o aroma peculiar e selvagem. Aqui, e por toda a ilha e suas praias, passei momentos muitos anos, todas as estações, às vezes cavalgando, às vezes andando de barco, mas geralmente a pé (sempre fui, naquele tempo, um bom caminhante), absorvendo campos, praias, incidentes marítimos, personagens, os habitantes da baía, fazendeiros, pilotos–sempre tive abundante familiaridade com esses últimos, e com pescadores–ia todo verão em viagens de barco, sempre gostei da praia de mar vazia, o lado sul, e tenho algumas de minhas horas mais felizes nela até hoje.
Conforme escrevo, toda a experiência vem a mim após o intervalo de quarenta e tantos anos–o suave sussurrar das ondas, e o odor salino—tempos de meninice, cavar mariscos, descalço e com as calças enroladas—me arrastando córrego abaixo, o perfume de prados de junca, o barco de feno, e o ensopado e pescarias;–ou, de anos posteriores, pequenas viagens descendo e saindo da baía de Nova York, nos barcos-piloto. Nesses mesmos anos posteriores, também, enquanto estava morando no Brooklyn (1836-’50), eu ia regularmente toda semana nas estações amenas até Coney Island, naquele tempo uma longa praia vazia e erma, que eu tinha toda para mim, e onde eu amava, após o banho, correr para um lado e pro outro na areia compacta, e declamar Homero ou Shakespeare à arrebentação e às gaivotas a cada hora. Mas estou avançando rápido demais, e devo ater-me mais ao meu registro.


[1] “Paumanok (ou Paumanake ou Paumanack, o nome indígena de Long Island), com mais de cem milhas de extensão; em forma de peixe—abundante em costa marítima, arenosa, tempestuosa, pouco convidativa, o horizonte infinito, o ar forte demais para inválidos, as baías um recanto maravilhoso para aves aquáticas, os campos do lado sul cobertos de feno salino, o solo da ilha geralmente duro, mas bom para a alfarrobeira, o pomar de macieiras, e a amora-preta, e com inúmeras nascentes da água mais doce do mundo. Anos atrás, entre os habitantes da baía—uma raça forte, selvagem, agora extinta, ou melhor, inteiramente modificada, um nativo de Long Island era chamado de Paumanacker ou Crioulo-Paumanacker.”–John Burroughs.

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