20. Batalha de Bull Run, Julho, 1861
BATALHA DE BULL RUN, JULHO, 1861
Todo esse tipo de sentimento estava destinado a ser preso e revertido por um choque terrível—a primeira batalha de Bull Run–certamente, tal como a conhecemos hoje, um dos mais singulares combates conhecidos. (Todas as batalhas, e seus resultados, são mais questões de acidente do que geralmente se pensa; mas essa foi do começo ao fim um infortúnio, um acaso. Cada lado achou que tinha ganho, até o último momento. Um tinha, de fato, o mesmo direito de ser derrotado que o outro. Através de uma ficção, ou série de ficções, as forças nacionais, no último momento, explodiram em pânico e fugiram do campo.) As tropas derrotadas começaram a afluir em Washington pela Long Bridge em pleno dia na segunda-feira, 22–que chuviscou o tempo inteiro. O sábado e domingo da batalha (20, 21) tinham sido ressecados e quentes ao extremo–a poeira, a sujeira e a fumaça, em camadas, fermentavam, seguidas por outras camadas novamente fermentadas, absorvidas por aquelas almas agitadas–suas roupas todas saturadas com o pó da terra preenchendo o ar–incitadas em todos os lugares nas estradas secas e campos pisados pelos regimentos, fervilhando de carroças, peças de artilharia, &c.–todos os homens com este revestimento de trevas, suor e chuva, agora recuando, afluindo sobre Long Bridge–uma marcha horrível de vinte milhas, retornando a Washington perplexos, humilhados, apavorados. Onde estão as jactâncias, e as orgulhosas bazófias com que vocês partiram? Onde estão suas bandeiras, e suas bandas de música, e suas cordas para trazer de volta seus prisioneiros? Bem, não há uma banda tocando–e não há uma flâmula que não se grude envergonhada e frouxa ao seu mastro.
O sol nasce, mas não brilha. Os homens aparecem, inicialmente de modo esparso e envergonhados o bastante, então mais numerosos, na ruas de Washington–aparecem na avenida Pensilvânia, e nos degraus e entradas de porões. Eles chegam em turbas desordenadas, alguns em esquadrões, grupos extraviados, companhias. Ocasionalmente, um raro regimento, em perfeita ordem, com seus comandantes (algumas lacunas, mortos, os verdadeiros bravos) marchando em silêncio, com rostos abatidos, austeros, fatigados até a prostração, tudo preto e sujo, mas cada homem com seu mosquete, e andando vivo; mas estes são as exceções. As calçadas da avenida Pennsylvania, da rua XIV, &c., lotadas, congestionadas de cidadãos, pretinhos, funcionários, todo mundo, espectadores; mulheres nas janelas, expressões curiosas dos rostos, conforme aqueles grupos de soldados cobertos de sujeira lá (não terminarão nunca?) passam; mas nada é dito, sem comentários; (metade dos nossos espectadores são secessionistas do tipo mais peçonhento–não dizem nada; mas o demônio aparece com escárnio em seus rostos). Durante a manhã Washington é invadida por essa multidão heterogênea de soldados derrotados–objetos esquisitos, olhos e rostos estranhos, encharcados (a chuva constante garoa o dia todo) e terrivelmente desgastados, famintos, fatigados, pés cobertos de bolhas. Boas pessoas (mas não muitas delas também) servem alguma bóia para eles. Colocam caldeirões no fogo, para sopa, para café. Arrumam mesas na calçada—carregamentos de pães são adquiridos, rapidamente cortados em pedaços robustos. Eis aqui duas senhoras idosas, bonitas, as primeiras na cidade em cultura e charme, elas ficam com um suprimento de comes e bebes em uma mesa improvisada de tabuão tosco, e distribuem alimento, e reabastecem o estoque a cada meia hora durante todo esse dia; e lá na chuva elas se postam, ativas, silenciosas, de cabelos brancos, e doam alimento, embora as lágrimas escorram por suas faces, quase sem intervalo, o tempo todo. Em meio à emoção profunda, multidões e movimento, e ânsia desesperada, parece estranho ver muitos, muitos mesmo, dos soldados dormindo–no meio de tudo, dormindo profundamente. Eles desabam em qualquer lugar, nos degraus das casas, perto de porões ou cercas, na calçada, à parte em algum lote vago, e dormem profundamente. Um pobre garoto de dezessete ou dezoito anos jaz ali, na varanda de uma grande casa; ele dorme tão calmamente, tão profundamente. Alguns agarram seus mosquetes firmemente, mesmo dormindo. Alguns em esquadrões; companheiros, irmãos, bem próximos–e sobre eles, conforme jazem, lugubremente verte a chuva.
Conforme passava a tarde, e chegava a noite, as ruas, os bares, grupos em todos os lugares, ouvintes, interlocutores, histórias terríveis, fantasmas, peças de artilharia disfarçadas, nosso regimento todo cortado, etc.–estórias e contadores de estórias, empolados, gabando-se, centros vãos de multidões na rua. Resolução, masculinidade, parecem ter abandonado Washington. O hotel principal, Willard’s, está cheio de dragonas–cerrado, apertado, carregado de dragonas. (Vejo os oficiais, e devo ter uma palavrinha com eles. Eis vós aí, oficiais!–mas onde estão vossas companhias? onde estão vossos homens? Incompetentes! nunca contai-me de chances de batalha, de ter se perdido, e assim por diante. Acho que isso é vosso trabalho, esta retirada, afinal. Esquivai, enfatuai-vos, mostrai vossa afetação nos salões suntuosos e bares do Willard’s, ou em qualquer lugar– nenhuma explicação vos salvará. Bull Run é vosso trabalho; se tivésseis tido a metade ou um décimo da dignidade de vossos homens, isto jamais teria acontecido.)
Enquanto isso, em Washington, entre as grandes pessoas e sua comitiva, uma mistura de terrível consternação, insegurança, raiva, vergonha, desamparo, e embrutecedora decepção. O pior não é só iminente, mas já está aqui. Em poucas horas–talvez antes da próxima refeição—os generais secessionistas, com suas hordas vitoriosas, estarão sobre nós. O sonho de humanidade, a alardeada União que pensamos tão forte, tão inexpugnável–vede! afigura-se já esmagada como um prato de porcelana. Uma amarga, amarga hora—talvez a orgulhosa América jamais conhecerá uma hora assim de novo. Ela deve fazer as malas e fugir—não há tempo a perder. Aqueles brancos palácios– o capitólio abobadado lá na colina, tão imponente sobre as árvores–devem ser esquecidos–ou destruídos primeiro? Pois é certo que a conversa entre alguns dos magnatas e diretores e funcionários e oficiais em todo lugar, por vinte e quatro horas dentro e em torno de Washington após Bull Run, era alta e indisfarçada para se render mais e mais, e colocar no lugar o comando sulista, e Lincoln prontamente abdicar e partir. Se os oficiais e as forças secessionistas tivessem prosseguido imediatamente e por um ousado movimento napoleônico tivessem entrado em Washington no primeiro dia (ou mesmo no segundo), eles poderiam ter conseguido as coisas à maneira, e uma poderosa facção do norte a apoiá-los. Um de nossos coronéis de regresso expressou em público naquela noite, em meio a uma multidão de oficiais e cavalheiros em uma sala lotada, a opinião de que era inútil lutar, que os sulistas tinham tornado sua posição inequívoca, e que o melhor caminho para o governo nacional buscar era renunciar a qualquer tentativa de pará-los, e admiti-los novamente na liderança, nas melhores condições que eles estavam dispostos a conceder. Nem uma voz foi levantada contra esta sentença, em meio àquela grande multidão de oficiais e cavalhiros. (O fato é, aquela hora foi uma das três ou quatro dessas crises que tivemos então e depois, durante as flutuações de quatro anos, quando olhos humanos pareciam tanto ver a mesma probabilidade do último suspiro da União quanto vê-la continuar.)